terça-feira, 6 de dezembro de 2011

NATURALIZAÇÃO DO CAPITALISMO

      -Todos em pé! Vamos aplaudir com entusiasmo o senhor Obedienteolino Concordâncio Contudios da Silva! O nosso operário padrão pelo décimo quinto ano consecutivo!Viva o Obedienteolino!
      -UHUU! Esse é o cara!
      -UHUU! É o orgulho da nossa empresa!
      -É isso aí Obedienteolino, é nóis na fita mano!


      Obedienteolino Concordâncio Contudios da Silva, 44 anos de idade.26 anos de empresa, a mesma empresa!Iniciou sua carreira como cobrador de ônibus intermunicipal entre as cidades vizinhas de Kurilândia e Capitópolis.Por sua competência,obediência e subserviência, com apenas 5 anos de firma foi promovido para cobrador de ônibus nível II, ficando apenas na metrópole de Kurilância, na linha turismo dessa cidade.Aos 33 anos Obedienteolino assumiu o posto de cobrador nível III, o cargo máximo que um homem poderia desejar na empresa de transporte de passageiros, a Latãobus, a única da região.
      10 horas diárias de trabalho na estação tubo.Sol e chuva, calor e frio! Tudo era "festa" para Obedienteolino, o operário padrão, o cobrador das estações tubo das linhas do "triarticulado", o maior latãobus do mundo.
      No curriculo de Obedienteolino não constava nenhuma falta, nenhum atraso. Concordava plenamente com o lema da diretoria da empresa: "Quem fica doente  e falta ao tabalho é porque não gosta do que faz".
      Nenhuma criança com mais de 5anos escapava aos olhos desse cobrador atento.Ninguém passava por baixo da catraca!Esse profissional vestia, literalmente a camisa da empresa!
      Muitas vezes a fila nos tubos,dobrava o quarteirão, pois os pais das "crianças suspeitas" deveriam apresentar a certidão de nacimento das mesmas e os documentos que comprovassem de fato serem menores de cinco anos para não pagarem passagem.
      Certa vez, uma professora tentou passar no tubo de Obedienteolino dando-lhe uma nota de 50reais para troco. Ele não teve dúvida. De posse das normas da empresa e dos avisos fixados nas paredes do seu tubo, estufou o peito e solenemente proclamou:
      - Senhora! Não sabes Ler? És cega, ou tens baixa visão? (com o dedo em riste direcionando-o aos avisos)prosseguiu com seu discurso pragmático).
      - 20 reais!Nem mais um centavo! 20 reais! Essa é a nota de maior valor permitida para troca pela Latãobus!
      A educadora estava paralisada!Todos olhavam para ela e gritavam:
      - Sai da fila, tá tumultuando! Não tem dinheiro vai a pé!Sai da fila! Sai da frente que atrás vem gente!
      Esperançosamente, a professora pediu gentilmente ao operário padrão que trocasse sua nota, ou então, ela o pagaria amanhã, pois durante todo o ano letivo, ela passava por este tubo, mas somente hoje ela não tinha em mãos, o dinheiro trocado para pagar sua passagem!
      - Não insista! A norma é clara! 20 reais é o troco máximo!E para concluir minha fala, lhe sugiro que vá a pé ao trablho hoje, o que é bom para sua saúde, ou pegue um táxi se está com pressa! e tenha uma ótima tarde!Porque no tubo da minha empresa ninguém fere, ninguém transgride as regras!
      Obedienteolino Concordâncio Contudios da Silva, operário padrão! Um claro exemplo da naturalização do capitalismo, porque o que interessa são as normas, as regras que garantem a compra, a venda, a troca, o consumo, e não as relações humanas.

texto: Josmazar.