- Pelo amor de Deeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeuuuuuusssss!!!!
A angustia e a dor pela falta da droga tomaram o cérebro e o corpo de Dormencius Kalvus. O desespero atingiu-o em cheio. A dependência chegou e se instalou em seu ser. Sua humanidade escoou ralo abaixo... O estado de animalização tomou conta daquele pobre sujeito que tornou-se apenas um pobre corpo e literalmente um corpo pobre, sem nada na cabeça, nem dentro, nem fora, nada de significativo... mais um, dentro da caverna.
- Comprar! Preciso comprar! Preciso ir ao shopping comprar!
- Comer!Preciso comer! Hambúrguer, salsicha e batata frita!
- Beber! Preciso beber! Devo uma coca-cola tomar, mas precisa ser zero para não engordar!
- Lazer! Necessito de lazer! Televisão agora vou ver! Big brother escolher, quem vai se foder!
-Todos em pé! Vamos aplaudir com entusiasmo o senhor Obedienteolino Concordâncio Contudios da Silva! O nosso operário padrão pelo décimo quinto ano consecutivo!Viva o Obedienteolino! -UHUU! Esse é o cara! -UHUU! É o orgulho da nossa empresa! -É isso aí Obedienteolino, é nóis na fita mano!
Obedienteolino Concordâncio Contudios da Silva, 44 anos de idade.26 anos de empresa, a mesma empresa!Iniciou sua carreira como cobrador de ônibus intermunicipal entre as cidades vizinhas de Kurilândia e Capitópolis.Por sua competência,obediência e subserviência, com apenas 5 anos de firma foi promovido para cobrador de ônibus nível II, ficando apenas na metrópole de Kurilância, na linha turismo dessa cidade.Aos 33 anos Obedienteolino assumiu o posto de cobrador nível III, o cargo máximo que um homem poderia desejar na empresa de transporte de passageiros, a Latãobus, a única da região. 10 horas diárias de trabalho na estação tubo.Sol e chuva, calor e frio! Tudo era "festa" para Obedienteolino, o operário padrão, o cobrador das estações tubo das linhas do "triarticulado", o maior latãobus do mundo. No curriculo de Obedienteolino não constava nenhuma falta, nenhum atraso. Concordava plenamente com o lema da diretoria da empresa: "Quem fica doente e falta ao tabalho é porque não gosta do que faz". Nenhuma criança com mais de 5anos escapava aos olhos desse cobrador atento.Ninguém passava por baixo da catraca!Esse profissional vestia, literalmente a camisa da empresa! Muitas vezes a fila nos tubos,dobrava o quarteirão, pois os pais das "crianças suspeitas" deveriam apresentar a certidão de nacimento das mesmas e os documentos que comprovassem de fato serem menores de cinco anos para não pagarem passagem. Certa vez, uma professora tentou passar no tubo de Obedienteolino dando-lhe uma nota de 50reais para troco. Ele não teve dúvida. De posse das normas da empresa e dos avisos fixados nas paredes do seu tubo, estufou o peito e solenemente proclamou: - Senhora! Não sabes Ler? És cega, ou tens baixa visão? (com o dedo em riste direcionando-o aos avisos)prosseguiu com seu discurso pragmático). - 20 reais!Nem mais um centavo! 20 reais! Essa é a nota de maior valor permitida para troca pela Latãobus! A educadora estava paralisada!Todos olhavam para ela e gritavam: - Sai da fila, tá tumultuando! Não tem dinheiro vai a pé!Sai da fila! Sai da frente que atrás vem gente! Esperançosamente, a professora pediu gentilmente ao operário padrão que trocasse sua nota, ou então, ela o pagaria amanhã, pois durante todo o ano letivo, ela passava por este tubo, mas somente hoje ela não tinha em mãos, o dinheiro trocado para pagar sua passagem! - Não insista! A norma é clara! 20 reais é o troco máximo!E para concluir minha fala, lhe sugiro que vá a pé ao trablho hoje, o que é bom para sua saúde, ou pegue um táxi se está com pressa! e tenha uma ótima tarde!Porque no tubo da minha empresa ninguém fere, ninguém transgride as regras! Obedienteolino Concordâncio Contudios da Silva, operário padrão! Um claro exemplo da naturalização do capitalismo, porque o que interessa são as normas, as regras que garantem a compra, a venda, a troca, o consumo, e não as relações humanas.
O jato de urina continuava batendo na parede côncava do vaso. Com a mesma intensidade, as imagens surgiam na tela mental da memória de Cristóvão. Além dos óculos noturnos, outros detalhes desfilavam como indumentária básica para a estreia de “Os vampiros estão dentro do shopping”:
Um senhor de sobretudo escarlate e uma senhora com um par de brincos em forma de dentes de alho nas orelhas, uma moça que viera ao cinema sozinha debaixo de uma elegante capa marrom importada da Transilvânia, um rapaz de terno preto ao lado de sua namorada dentro de um longo vestido branco, um menino com uma máscara de lobisomem, duas crianças vestidas iguais com dentaduras de vampiro de plástico, um jovem com um grande crucifixo de madeira no peito acompanhado de sua namorada com uma tatuagem de morcego nas costas, alguns jovens com barbichas demoniacamente de bode, um homem cheio de marcas de mordidas de mulher no pescoço acompanhado da esposa com um prendedor de cabelo em formato de estaca, um grupo de pessoas usando camisetas da sociedade oculta dos vampirólogos do Paraná, um garoto vestindo uma camiseta com a seguinte inscrição na frente “Estive no show dos Rolling Stones” e atrás, a foto do Keith Richards mordendo o Mick Jagger...
As luzes ainda não estavam apagadas quando as pessoas notaram a observação indiscreta. O senhor de sobretudo escarlate encarou o rapaz. Intimidou-o a virar-se para a frente.Cristóvão não teve coragem de mexer mais o pescoço, mas ainda havia coisas para se escutar. Mesmo depois do filme já ter começado as conversas paralelas continuavam:
-Como está cheio este cinema, amiga!
Era a fala de uma das duas senhoras que cochichavam próximas ao assento de Cristóvão.
-Por falar em “cheio”, amiga, o que é essa saliência na sua bolsinha?
-É um volume de Bram Stoker, amiga. Quero conferir se “Os vampiros estão dentro do shopping” é mais uma adaptação de Drácula.
-Nada como o nosso Trevisansinho! Concorda, amiga?
Alguém soprara um sinal, avisando as duas senhoras que as primeiras cenas já estavam projetando-se. Uma delas ainda resmungara antes de cessar a conversa:
-Anti-éticos! Será que pensam que somos cegas?
E quando a urina estava quase esgotando-se da bexiga de Cristóvão, sua memória retrocedeu há alguns dias atrás. Saiu da sala de cinema e foi buscar uma outra sala, em algum lugar da cidade. O rapaz lembrou-se, de repente, do consultório do doutor César.
-Quando eu era jovem eu também gostava de ler histórias em quadrinhos. Tenho uma coleção da Marvel Comics guardada em casa, só que o meu filho não gosta de ler nem os quadrinhos... Esse Gorila Musculoso estampado na sua camiseta eu não conheço. É algum novo vilão?
Foi exatamente com essas palavras que, na manhã de algumas semanas atrás,o médico apresentava-se ao jovem que procurava-o. Atrás de seu bigode grosso escondia-se um sorriso falso.
A micção havia acabado. Finalmente, Cristóvão estava pronto para sair da cabine e , ainda, alcançar Guria Maconha. Não ouvira mais a sua voz depois que ela veio até a porta do banheiro apressá-lo. Talvez ela o aguardasse no piso. Mas enquanto fechava o zíper da bermuda olhou para a estampa no próprio peito. Estava usando a mesma camiseta do dia da consulta. Lembrou também da resposta que dera ao médico:
-Não é vilão, doutor. O Gorila Nervoso é o meu super-herói favorito!
E, da mesma forma que naquela manhã, endireitou-se fazendo com que o tecido esticasse um pouco e aparecesse escrito “Gorila Nervoso”.
-O meu problema, doutor é que já completei dezoito anos, e ainda tenho um corpo de dezesete!
Dizer isso fora o que bastara para que o médico tirasse a caneta presa em sua camisa branca , escrevesse num papel uma palavra ininteligível, e entregasse-lhe a receita.
Cristóvão abaixou mais uma vez a cabeça etentou imitar a cara sisuda da fera em seu peito. Poderia disfarçar a sua fisionomia preocupada, deixando-a um pouco mais animal, antes de alcançar Guria Maconha. E ao olhar para o gorila, sentiu que os olhos da fera cobravam-lhe alguma coisa:
-Cara! Você ainda não comeu por quê? Gastou todo o dinheiro que sua mãe deu para comprar um tênis novo na consulta e na drogaria e agora vai deixar o remédio derreter no bolso?
O rapazimitava o Gorila Nervoso enquanto cobrava de si mesmo ,uma atitude.
-A Guria maconha não vai gostar dessa sua cara de medo!
Cristóvão saiu da cabine, lavou a mão, e antes de passar pela porta do banheiro, parou. Colocou a mão dentro de um dos bolsos e tirou uma bala. Na embalagem estava escrito Decadurabolin Caramelizado.
As gargalhadas ecoaram pelo cemitério! Na madrugada fria e chuvosa, nenhum mortal ousou sair de casa. Ninguém viu nem ouviu a celebração fúnebre que aconteceu naquela segunda-feira! Ao menos ninguém que estivesse vivo!
Treze mil habitantes. Esse era o número exato de pessoas vivas no vilarejo de Kurilândia, cidade famosa por ter a mais disciplinada escola do país, a "escolinha liberdadi".
Dez mil mortos! Esse era o número exato de cadáveres que repousavam no cemitério de Kurilândia! Porém, esse repouso estava por acabar. Nessa tempestuosa noite a estatística mudaria... tragicamente mudaria!
Sim! A forma decadente foi despertada! As gargalhadas no cemitério confirmaram o sucesso do ritual.O mal sempre vivo porta roupas novas: Mumm Ra, o de vida eterna é MIDYÁ-LIGNÁ, o sugador de almas!
- ESPÍRITOS DA INDÚSTRIA CULTURAL, TRANSFORMEM ESTA FORMA DECADENTE EM MIDYÁ-LIGNÁ, O DESPERTADOR DE CONSUMOS ETERNOS!
SÁBADO! 17:00
23 MIL ZUMBIS! ESSE ERA O NÚMERO EXATO DE "PESSOAS" QUE COMPRAVAM NAS 666 LOJAS DO SCHOPPING DE KURILÂNDIA!
Cristóvão ouvia a própria respiração, mas não ouviu mais os passos no corredor. O que fez com que a pessoa que veio até a porta parasse? Será que ela parou por ser ali o banheiro dos homens? Isso queria dizer que quem estava na porta seria uma mulher. Mas que mulher ainda estaria no shopping? A resposta à Cristóvão veio exatamente de lá de onde os passos cessaram.
-Faz mais de dez minutos que eu estou te esperando, piá? O que está fazendo aí dentro?
Era a voz de Guria Maconha que Cristóvão ouvia novamente. Ela o surpreendeu outra vez. Ele já não acreditava que a moça ainda estivesse o esperando. Achava que fazia muito mais de dez minutos que permanecia parado na cabine.
-Só mais um instantinho! –gritou decididamente, o rapaz. Chega de dúvidas! –pensou. Ainda estava em tempo de alcançar Guria maconha e saírem do shopping juntos. Beber vinho no Largo da Ordem... No carro dela?
Lá de fora do banheiro não veio nenhuma resposta ao seu grito decisivo. E a maior das surpresas da noite, pelo menos até aquele instante, veio do fundo da bacia sanitária. Algo terrivelmente espantoso aconteceu.
A reação de Cristóvão ao que ocorreu, naquele momento, após pensar que havia decidido alguma coisa, foi apenas continuar contraindo, ainda mais, os seus músculos. A tensão piorou.
Sem nenhum som de descarga, a límpida água começou a se movimentar. Uma imagem formou-se no fundo do vaso sanitário. O rapaz fixou o seu olhar para o rosto que aparecia. Olhava sem acreditar no que estava vendo.
Se fosse a cara de um estranho que aparecesse ali, ele simplesmente deixaria que um jato de urina jorrasse sobre toda aquela loucura... Mas o rosto que ele começou a enxergar precisava ser respeitado. Ele fechou o zíper da bermuda imediatamente.
- O que a senhora está fazendo aí, mamãe? –perguntou, Cristóvão, por impulso, ao rosto. Não imaginava que a aparição pudesse responder. Porém, o que ouviu em seguida, imobilizou completamente o rapaz. A imagem se correspondeu com ele. Ela falou:
-Fuja de Guria Maconha, meu filho. Ela não é uma boa menina para você, filho. Por favor, não entre no carro dela, Cristóvão!
-De onde a senhora a conhece, mãe? –gritou estarrecidamente, Cristóvão. Mas assim que fez a pergunta, percebeu que não era isso que precisava compreender primeiro. Lançou outra pergunta:
-Como a senhora veio parar aí, mãe!
A imagem não respondeu. Ela queria apenas continuar alertando:
- Venha para casa, meu filho. Eu estou te esperando! Acredite em mim, filho. Guria Maconha não vai levar você só até o Largo da Ordem. É claro que não! Não entre no carro dela. Ela vai te levar a um lugar aonde você não vai conseguir sair nunca mais. Eu tenho certeza do que estou falando. Por favor, meu filho. Venha para casa. Não entre no carro de Guria Maconha. Você não vai escapar dela nunca mais... Ela tem amigos que você ainda não conhece. São criaturas bem mais perigosas que ela...
-Primeiro, me diga, mãe. Como a senhora pode aparecer aí!
-Não há tempo de explicações meu filho. Saia correndo desse shopping enquanto Guria Maconha ainda não apresentou você às criaturas....
-Que criaturas, mãe! –Berrou, o rapaz enlouquecidamente à aparição do rosto da mãe.
-Saia correndo daí, filho. Você ainda pode alcançar o último ônibus... Venha para casa, Cristóvão!
-Chega! Isso não pode ser possível! –disse,Cristóvão. E em seguida, fechou os olhos. Tentou raciocinar um pouco. A imagem na água aparecera logo após Guria Maconha vir chamá-lo. Portanto, talvez, seria o seu próprio medo de sair com a moça que se manifestava daquela estranha forma. A imagem da mãe no fundo do vaso sanitário só poderia ser uma alucinação.
Mas ainda estava, realmente, ouvindo a voz dizendo para ele vir para casa. Escutava mesmo com os olhos fechados.
-Só vou abrir os olhos quando a senhora ficar em silêncio, mãe! -disse, Cristóvão, dessa vez, sem gritar; tentando manter a calma.
Resolveu parar a audição também. E assim, quando tirou os dedos dos ouvidos, tudo estava em silêncio. O rosto da mãe havia sumido.
A água permanecia límpida e parada. Cristóvão não viu mais nenhuma movimentação. Mas em seu peito, as batidas cardíacas continuavam aceleradas. Só tinha uma maneira de provar a si mesmo que não acreditava ser real tudo aquilo que viu. Deveria mijar sobre o vaso assombrado e acionar a descarga como se nada tivesse aparecido ali.
Não deixou que outro pensamento tirasse a sua razão. Respirou lentamente e deixou que a urina saísse.
O jato de urina acumulada impulsionou-se triunfalmente. Escapou como uma manada de porcos jogando-se do precipício. Ao mesmo tempo, um fluxo de imagens começou a se exorcisar através da memória.
Quando escolheu ver o filme do meio da primeira fileira, havia pouca gente; pois entrou na sala bem adiantado. Porém, logo, o lugar começou a encher. E quando a sala já estava lotada ele pensou : Será que havia algum elemento perigoso à retina humana na tela? Todos estavam usando óculos escuros.
Virando o pescoço e movendo a cabeça a procura de alguém, que como ele, não protegia os olhos, observara o quadro. Os modelos variavam em suas combinações:
Óculos com cabelo amarrado, óculos com black power, óculos com correntes grossas no peito, óculos com grandes argolas nas orelhas, óculos com umbigo aparecendo, óculos com dianteira de ônibus para senhoras, óculos com testa saliente, óculos com cabeça raspada, óculos azul de armação branca com topete louro, óculos com boné virado para trás, óculos com cabelo de brilho molhado, óculos com boné de aba para cima, óculos com piercings, óculos mastigando chicletes, óculos com aparelhos ortodônticos, óculos com lenço de pirata...
( continua)
Texto: Osmar Batista Leal
Leia também:
Pálidas’ Drinks ( em localdoocio.blogspot.com)
A centopeia sem sapatos (em algumasfabulas.blogspot.com)
Junto ao objeto mais elegante do interior daquele shopping, Cristóvão permanecia parado. Seus olhos estavam abaixados para a louça de superfície primorosa e boca oval. Iam até aágua estancada e fixavam-se no fundo do vaso sanitário. Mas em seu cérebro havia intenso movimento. Dentro dapequena cabine, o rapaz pensava.
A bexiga estava totalmente cheia. Pronta para descer pela uretra e saltar para o exterior, a urina aguardava a liberação dos esfíncteres. No entanto, estes músculos contraiam-se obedientemente. Não relaxariam enquanto não obtivessem um sinal vindo da cabeça que comandava o organismo inteiro.
Mas Cristóvão nem sequer abrira o zíper da bermuda. Ele apenas pensava. A moça que apareceu dizendo se chamar “Guria Maconha” dominava todo o universo de seu pensamento.
Seu sangue circulava alteradamente pelas veias. Os vasos que distribuíam o líquido para a região frontal sofreram uma estranha e violenta pressão. De pupilas dilatadas e olhos vermelhos, o rapaz esforçava-se. Tentava tomar o controle do próprio cérebro . Não conseguia ter a imagem que queria, concretamente formada. Tudo o que imaginava era uma variedade de cores que misturavam-se em sua memória. Uma pintura abstrata que significava “os olhos arco- íris de Guria Maconha”
De onde veio a moça? Apareceu na poltrona ao seu lado, do nada. Não a percebeu aproximando-se! Normal. Estava concentrado no filme. Qual foi mesmo aúltima cena, antes da escuridão?
Um pequeno vulto movimentando-se dentro de uma tubulação escura. Rastejava com muita dificuldade, quase afogando-se por entre um líquido estagnado e sujo. Quando a cena ficou um pouco mais clara, reconheceu-se a forma da coisinha que se arrastava. Não era um verme! O corpo que se formou foi o de um homenzinho. Vestia uma roupamuito engraçada. Em volta de seu pescoço havia algo que lembrava um leque. Parecia ter sido tirado de uma pintura antiga. Fugia em desespero mortal até que finalmente teve que parar. Levantou sua cabeça de forma que a barba pontuda de seu esquisito queixinho ficasse a mostra. A figurinha aflitaarregalou ospontinhos que seriam seus olhos, e encarando os expectadores, gritou desesperadamente. E então a tela escureceu deixando bem claro que a criaturinha humana não conseguiria escapar. Alguma coisa bem maior a devorou...
Cristóvão conseguiu lembrar alguns detalhes do filme, mas tinha dificuldades em relembrar o rosto da moça que apareceu quando as luzes se acenderam. Precisava vê-la de novo... Ou seria melhor deixar quieto?
Mas por quetinha que ficar analisando tanto as coisas ? Por que não mijavalogo de uma vez e saía dali. Procurava por dentes de vampiro em uma mulher só pelo fato dela aparecer no final de um filme de terror? É que, na verdade,o filme não terminou direito... Se não tivesse terminado as outras pessoas ainda estavam lá nas poltronas. Estavam? É claro que não.
Doze foi o número de mulheres para as quais, Cristóvão pensou convidar para assistir “os vampiros estão dentro do shopping” , mas quando chegou o dia de vir ao cinema, resolveu nem tentar... Guria Maconha veio sentar ao seu lado sem ser convidada!
Mesmo usando um capuz que cobria grande parte da cara, não considerava-se feio. Havia muitos caras mais feiosandando tranquilamente por aí. Era injustamente por ele que as fêmeas não sentiam-se nem um pouco atraídas... Mas dessa vez, Guria Maconha gostou dele ! Ou ela tinha alguma intenção oculta?
-Você não usa as palavras certas! Não sabe elogiá-las! -Disse Cristóvão, a si mesmo.
-As mulheres querem ouvir palavras bonitas. Continuou a responder à própria mente indecisa. Após livrar-se das perguntas mentais passou a uma fase de afirmações.
-As mulheres querem que você diga que elas são lindas! Porém, pareciam não ser frases próprias. Era como se outra pessoa falasse dentro de seu pensamento. Seria Guria Maconha que elaborava essas frases? Voltaram as perguntas. Será que ela ainda estava esperando- o lá fora? Mas afinal, quais palavras ele usou para que , até então , ela ainda o aguardasse? Nenhuma. Disse apenas que fosse indo na frente. Precisava dar um mijão.
Há quanto tempo já permanecia parado ali? Por que ainda não mijou? Os respingos de urina, no chão e perto da pia, que observara desde que entrou no banheiro mostravam que muitas pessoas passaram por ali. Mas no momento tudo estava extremamente silencioso.Talvez não houvesse mais ninguém, além de Cristóvão dentro do Shopping. Guria Maconha também já devia ter entrado no carro que dissera ter deixado no estacionamento e ido embora.
O rapaz sentiu que a garganta estava seca. Precisava molhá-la com um gole de vinho. Conseguia imaginar-se andando rapidamente pelo meio das pessoas lá no Largo da Ordem, com uma garrafa de vinho na mão, procurando por Guria Maconha... Mas antes precisava livrar-se de todo o refrigerante que bebera. A água no fundo do vaso mantinha-se em seu nível constante impedindo que o cheiro de esgoto invadisse o ambiente. Sua brancura aguardava a urina cair.
De repente, a vontade de beber não era tudo. Cristóvão desejou, também, mastigar alguma coisa doce. Lembrou de algo. Colocou a mão dentro de um dos bolsos da bermuda, conferindo se não faltava nada do que trouxe.
Ao tirar a mão do bolso percebeu que, na pressa de sair de casa, esqueceu do relógio. Perdeu completamente a noção do tempo. Será que já fazia mais de uma hora que permanecia escondido dentro da cabine? Escondido ! Mas o que ele temia?
-Que coisa mais palha! Precisava sair imediatamente. Não , semaliviar a bexiga. Decidido, puxou o zíper da bermuda para baixo.
Nesse momento, o silêncio da cabine foi interrompido por passos que vinham pelo piso. Os passos cessaram na porta do banheiro. Cristóvão sentiu as rápidas batidas no coração.