Junto ao objeto mais elegante do interior daquele shopping, Cristóvão permanecia parado. Seus olhos estavam abaixados para a louça de superfície primorosa e boca oval. Iam até a água estancada e fixavam-se no fundo do vaso sanitário. Mas em seu cérebro havia intenso movimento. Dentro da pequena cabine, o rapaz pensava.
A bexiga estava totalmente cheia. Pronta para descer pela uretra e saltar para o exterior, a urina aguardava a liberação dos esfíncteres. No entanto, estes músculos contraiam-se obedientemente. Não relaxariam enquanto não obtivessem um sinal vindo da cabeça que comandava o organismo inteiro.
Mas Cristóvão nem sequer abrira o zíper da bermuda. Ele apenas pensava. A moça que apareceu dizendo se chamar “Guria Maconha” dominava todo o universo de seu pensamento.
Seu sangue circulava alteradamente pelas veias. Os vasos que distribuíam o líquido para a região frontal sofreram uma estranha e violenta pressão. De pupilas dilatadas e olhos vermelhos, o rapaz esforçava-se. Tentava tomar o controle do próprio cérebro . Não conseguia ter a imagem que queria, concretamente formada. Tudo o que imaginava era uma variedade de cores que misturavam-se em sua memória. Uma pintura abstrata que significava “os olhos arco- íris de Guria Maconha”
De onde veio a moça? Apareceu na poltrona ao seu lado, do nada. Não a percebeu aproximando-se! Normal. Estava concentrado no filme. Qual foi mesmo a última cena, antes da escuridão?
Um pequeno vulto movimentando-se dentro de uma tubulação escura. Rastejava com muita dificuldade, quase afogando-se por entre um líquido estagnado e sujo. Quando a cena ficou um pouco mais clara, reconheceu-se a forma da coisinha que se arrastava. Não era um verme! O corpo que se formou foi o de um homenzinho. Vestia uma roupa muito engraçada. Em volta de seu pescoço havia algo que lembrava um leque. Parecia ter sido tirado de uma pintura antiga. Fugia em desespero mortal até que finalmente teve que parar. Levantou sua cabeça de forma que a barba pontuda de seu esquisito queixinho ficasse a mostra. A figurinha aflita arregalou os pontinhos que seriam seus olhos, e encarando os expectadores, gritou desesperadamente. E então a tela escureceu deixando bem claro que a criaturinha humana não conseguiria escapar. Alguma coisa bem maior a devorou...
Cristóvão conseguiu lembrar alguns detalhes do filme, mas tinha dificuldades em relembrar o rosto da moça que apareceu quando as luzes se acenderam. Precisava vê-la de novo... Ou seria melhor deixar quieto?
Mas por que tinha que ficar analisando tanto as coisas ? Por que não mijava logo de uma vez e saía dali. Procurava por dentes de vampiro em uma mulher só pelo fato dela aparecer no final de um filme de terror? É que, na verdade, o filme não terminou direito... Se não tivesse terminado as outras pessoas ainda estavam lá nas poltronas. Estavam? É claro que não.
Doze foi o número de mulheres para as quais, Cristóvão pensou convidar para assistir “os vampiros estão dentro do shopping” , mas quando chegou o dia de vir ao cinema, resolveu nem tentar... Guria Maconha veio sentar ao seu lado sem ser convidada!
Mesmo usando um capuz que cobria grande parte da cara, não considerava-se feio. Havia muitos caras mais feios andando tranquilamente por aí. Era injustamente por ele que as fêmeas não sentiam-se nem um pouco atraídas... Mas dessa vez, Guria Maconha gostou dele ! Ou ela tinha alguma intenção oculta?
-Você não usa as palavras certas! Não sabe elogiá-las! -Disse Cristóvão, a si mesmo.
-As mulheres querem ouvir palavras bonitas. Continuou a responder à própria mente indecisa. Após livrar-se das perguntas mentais passou a uma fase de afirmações.
-As mulheres querem que você diga que elas são lindas! Porém, pareciam não ser frases próprias. Era como se outra pessoa falasse dentro de seu pensamento. Seria Guria Maconha que elaborava essas frases? Voltaram as perguntas. Será que ela ainda estava esperando- o lá fora? Mas afinal, quais palavras ele usou para que , até então , ela ainda o aguardasse? Nenhuma. Disse apenas que fosse indo na frente. Precisava dar um mijão.
Há quanto tempo já permanecia parado ali? Por que ainda não mijou? Os respingos de urina, no chão e perto da pia, que observara desde que entrou no banheiro mostravam que muitas pessoas passaram por ali. Mas no momento tudo estava extremamente silencioso. Talvez não houvesse mais ninguém, além de Cristóvão dentro do Shopping. Guria Maconha também já devia ter entrado no carro que dissera ter deixado no estacionamento e ido embora.
O rapaz sentiu que a garganta estava seca. Precisava molhá-la com um gole de vinho. Conseguia imaginar-se andando rapidamente pelo meio das pessoas lá no Largo da Ordem, com uma garrafa de vinho na mão, procurando por Guria Maconha... Mas antes precisava livrar-se de todo o refrigerante que bebera. A água no fundo do vaso mantinha-se em seu nível constante impedindo que o cheiro de esgoto invadisse o ambiente. Sua brancura aguardava a urina cair.
De repente, a vontade de beber não era tudo. Cristóvão desejou, também, mastigar alguma coisa doce. Lembrou de algo. Colocou a mão dentro de um dos bolsos da bermuda, conferindo se não faltava nada do que trouxe.
Ao tirar a mão do bolso percebeu que, na pressa de sair de casa, esqueceu do relógio. Perdeu completamente a noção do tempo. Será que já fazia mais de uma hora que permanecia escondido dentro da cabine? Escondido ! Mas o que ele temia?
-Que coisa mais palha! Precisava sair imediatamente. Não , sem aliviar a bexiga. Decidido, puxou o zíper da bermuda para baixo.
Nesse momento, o silêncio da cabine foi interrompido por passos que vinham pelo piso. Os passos cessaram na porta do banheiro. Cristóvão sentiu as rápidas batidas no coração.
Texto: Osmar Batista Leal
( Continua... )
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(em localdoocio.blogspot.com)
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