segunda-feira, 14 de novembro de 2011

OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING PARTE 3



     
      Cristóvão ouvia a própria respiração, mas não ouviu mais os passos no corredor. O que fez com que a pessoa que veio até a porta parasse? Será que ela parou por ser ali o banheiro dos homens? Isso queria dizer que quem estava  na porta seria uma mulher. Mas que mulher ainda estaria no shopping? A resposta à Cristóvão  veio exatamente de lá de onde os passos cessaram.  
      -Faz mais de dez minutos que eu estou te esperando, piá? O que está fazendo aí dentro?
      Era a voz de Guria Maconha que Cristóvão ouvia novamente. Ela o surpreendeu outra vez. Ele já não acreditava que a moça ainda estivesse o esperando. Achava que fazia muito mais de dez minutos que permanecia parado na cabine.
       -Só mais um instantinho!  –gritou decididamente,  o rapaz. Chega de dúvidas! –pensou. Ainda estava em tempo de alcançar Guria maconha e saírem do shopping juntos. Beber vinho no Largo da Ordem... No carro dela?  
       Lá de fora do banheiro não veio nenhuma resposta ao seu grito decisivo. E a maior das surpresas da noite, pelo menos até aquele instante, veio do fundo da bacia sanitária. Algo terrivelmente espantoso aconteceu.
       A reação de Cristóvão ao que ocorreu, naquele momento, após pensar que havia decidido alguma coisa, foi apenas continuar contraindo, ainda mais, os  seus músculos. A tensão piorou.
       Sem nenhum som de descarga, a límpida água começou a se movimentar. Uma imagem formou-se no fundo do vaso sanitário. O rapaz fixou o seu olhar para o rosto que aparecia. Olhava sem acreditar no que estava vendo.
       Se fosse a cara de um estranho que aparecesse ali, ele simplesmente deixaria que um jato de urina jorrasse sobre toda aquela loucura... Mas o rosto que ele começou a enxergar  precisava ser respeitado. Ele fechou o zíper da bermuda imediatamente.
       - O que a senhora está fazendo aí, mamãe? –perguntou, Cristóvão, por impulso, ao rosto.  Não imaginava que a aparição pudesse responder. Porém, o que ouviu em seguida, imobilizou  completamente o rapaz.  A imagem  se correspondeu com ele. Ela falou:
      -Fuja de Guria Maconha, meu filho. Ela não é uma boa menina  para você, filho. Por favor, não entre no carro dela, Cristóvão! 
      -De onde a senhora a conhece, mãe? –gritou estarrecidamente, Cristóvão. Mas assim que fez a pergunta,  percebeu que não era isso que precisava compreender primeiro. Lançou outra pergunta:
      -Como a senhora veio parar aí, mãe!
      A imagem não respondeu. Ela queria apenas continuar alertando:
      - Venha para casa, meu filho. Eu estou te esperando! Acredite em mim, filho. Guria Maconha não vai levar você só até o Largo da Ordem. É claro que não! Não entre no carro dela. Ela vai te levar a um lugar aonde você não vai conseguir sair nunca mais. Eu tenho certeza do que estou falando. Por favor, meu filho. Venha para casa. Não entre no carro de Guria Maconha. Você não vai escapar dela nunca mais... Ela tem amigos que você ainda não conhece. São criaturas bem mais perigosas que ela...
      -Primeiro, me diga, mãe. Como a senhora pode aparecer aí!
      -Não há tempo de explicações meu filho. Saia correndo desse shopping enquanto Guria Maconha ainda não apresentou você às criaturas....
      -Que criaturas, mãe! –Berrou, o rapaz enlouquecidamente à aparição do rosto da mãe.
      -Saia correndo daí, filho. Você ainda pode alcançar o último ônibus... Venha para casa, Cristóvão!
      -Chega! Isso não pode ser possível! –disse,Cristóvão. E em seguida, fechou os olhos. Tentou raciocinar um pouco. A imagem na água aparecera logo após Guria Maconha vir chamá-lo. Portanto, talvez, seria o seu próprio medo de sair com a moça  que se manifestava daquela estranha forma. A imagem da mãe no fundo do vaso sanitário só poderia ser uma alucinação.
      Mas ainda estava, realmente, ouvindo a voz dizendo para ele vir para casa. Escutava mesmo com os olhos fechados.
       -Só vou abrir os olhos quando a senhora ficar em silêncio, mãe!  -disse, Cristóvão, dessa vez, sem gritar; tentando manter a calma.
       Resolveu parar a audição também. E assim,  quando tirou os dedos dos ouvidos, tudo estava em silêncio. O rosto da mãe havia sumido.  
       A água permanecia límpida e parada. Cristóvão não viu mais nenhuma movimentação. Mas em seu peito,  as batidas cardíacas continuavam aceleradas. Só tinha uma maneira de provar a si mesmo que não acreditava ser real tudo aquilo que viu. Deveria mijar sobre o vaso assombrado e acionar a descarga como se nada tivesse aparecido ali.
       Não deixou que outro pensamento tirasse a sua razão. Respirou lentamente  e deixou que a urina saísse.
      O jato de urina acumulada impulsionou-se triunfalmente. Escapou como uma manada de porcos jogando-se do precipício. Ao mesmo tempo, um fluxo de imagens começou a se exorcisar através da memória.
      Quando escolheu ver o filme do meio da primeira fileira, havia pouca gente; pois entrou na sala bem adiantado. Porém, logo, o lugar começou a encher. E quando a sala já estava lotada ele pensou : Será que havia algum elemento perigoso à retina humana na tela? Todos estavam usando óculos escuros.    
       Virando o pescoço e movendo a cabeça a procura de alguém, que como ele, não protegia os olhos, observara o quadro. Os modelos variavam em suas combinações:
       Óculos com cabelo amarrado, óculos com black power, óculos com correntes grossas no peito, óculos com grandes argolas nas orelhas, óculos com umbigo aparecendo, óculos com dianteira de ônibus para senhoras, óculos com testa saliente, óculos com cabeça raspada, óculos azul de armação branca com topete louro, óculos com boné virado para trás, óculos com cabelo de brilho molhado, óculos com boné de aba para cima, óculos com piercings, óculos mastigando chicletes, óculos com aparelhos ortodônticos, óculos com lenço de pirata...

      ( continua)
       Texto: Osmar Batista Leal
   
   
Leia também:
   Pálidas’ Drinks ( em localdoocio.blogspot.com)   
   A centopeia sem sapatos (em algumasfabulas.blogspot.com)

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