segunda-feira, 28 de novembro de 2011

OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING PARTE 4


     O jato de urina continuava batendo na parede côncava do vaso. Com a mesma intensidade, as imagens surgiam na tela mental da memória de Cristóvão. Além dos óculos noturnos, outros detalhes desfilavam como indumentária básica para a estreia de “Os vampiros estão dentro do shopping”:
    Um senhor de sobretudo escarlate e  uma senhora com um par de brincos em forma de dentes de alho nas orelhas, uma moça que viera ao cinema sozinha debaixo de uma elegante capa marrom importada da Transilvânia, um rapaz de terno preto ao lado de sua namorada dentro de um longo vestido branco, um menino com uma máscara de lobisomem, duas crianças vestidas iguais com dentaduras de vampiro de plástico, um jovem com um grande crucifixo de madeira no peito acompanhado  de  sua namorada com uma tatuagem de morcego nas costas, alguns jovens com barbichas demoniacamente de bode, um homem cheio de marcas de mordidas de mulher no pescoço acompanhado da esposa com um prendedor de cabelo em formato de estaca, um grupo de pessoas usando camisetas da sociedade oculta dos vampirólogos do Paraná, um garoto vestindo uma camiseta com a seguinte inscrição na frente “Estive no show dos Rolling Stones” e atrás, a foto do Keith Richards mordendo o Mick Jagger...
      As luzes ainda não estavam apagadas quando as pessoas notaram a observação indiscreta. O senhor de sobretudo escarlate encarou o rapaz. Intimidou-o a virar-se para a frente.Cristóvão não teve coragem de mexer mais o pescoço, mas  ainda havia coisas para se escutar. Mesmo depois do filme já ter começado as conversas paralelas continuavam: 
       -Como está cheio este cinema, amiga!
       Era a fala de uma das duas senhoras que cochichavam próximas ao assento de Cristóvão.  
       -Por falar em “cheio”, amiga, o que é essa saliência na sua bolsinha?
       -É um volume de Bram Stoker, amiga. Quero conferir se “Os vampiros estão dentro do shopping” é mais uma adaptação de Drácula.
       -Nada como o nosso Trevisansinho! Concorda, amiga?
       Alguém soprara um sinal, avisando as duas senhoras que as primeiras cenas já estavam projetando-se. Uma delas ainda  resmungara antes de cessar a conversa:
       -Anti-éticos! Será que pensam que somos cegas?
       E quando a urina estava quase esgotando-se da bexiga de Cristóvão, sua memória retrocedeu há alguns dias atrás. Saiu da sala de cinema e foi buscar uma outra sala, em algum lugar da cidade. O rapaz lembrou-se, de repente, do consultório do doutor César.  
        -Quando eu era jovem eu também gostava de ler histórias em quadrinhos. Tenho uma coleção da Marvel Comics guardada em casa, só que o meu filho não gosta de ler nem os quadrinhos... Esse Gorila Musculoso estampado na sua camiseta eu não conheço. É  algum novo vilão?
        Foi exatamente com essas palavras que, na manhã de algumas semanas atrás,  o médico apresentava-se ao jovem que procurava-o. Atrás de seu bigode grosso escondia-se um sorriso falso.
       A micção havia acabado. Finalmente, Cristóvão estava pronto para sair da cabine e , ainda, alcançar  Guria Maconha. Não ouvira mais a sua voz depois que ela veio até a porta do banheiro apressá-lo. Talvez ela o aguardasse no piso. Mas enquanto fechava o zíper da bermuda olhou para a estampa no próprio peito. Estava usando a mesma camiseta do dia da consulta. Lembrou também da resposta que dera ao médico:
        -Não é vilão, doutor. O Gorila Nervoso é o meu super-herói favorito!
        E, da mesma forma que naquela manhã,  endireitou-se fazendo com que o tecido esticasse um pouco e aparecesse escrito  “Gorila Nervoso”.
        -O meu problema, doutor é que já completei dezoito anos, e ainda tenho um corpo de dezesete!
        Dizer isso fora o que bastara para que o médico tirasse a caneta presa em sua camisa branca , escrevesse num papel uma palavra ininteligível, e entregasse-lhe a receita.
        Cristóvão abaixou mais uma vez a cabeça e  tentou imitar a cara sisuda da fera em seu peito. Poderia disfarçar a sua fisionomia preocupada, deixando-a um pouco mais animal, antes de alcançar Guria Maconha. E ao olhar para o gorila, sentiu que os olhos da fera cobravam-lhe  alguma coisa:
         -Cara! Você ainda não comeu por quê? Gastou  todo o dinheiro que sua mãe deu para comprar um tênis novo na consulta e na drogaria e agora vai deixar o remédio derreter no bolso?
       O rapaz  imitava o Gorila Nervoso enquanto cobrava de  si  mesmo ,uma atitude.    
         -A Guria maconha não vai gostar dessa sua cara de medo!
         Cristóvão saiu da cabine, lavou a mão, e antes de passar pela porta do banheiro, parou. Colocou  a mão dentro de um dos bolsos e tirou uma bala. Na embalagem estava  escrito Decadurabolin Caramelizado.
    
   
        Texto: Osmar Batista Leal

    ( Continua... )


  Outros textos:

    “Pálidas’ Drinks”
    (localdoocio.blogspot.com)
    “Os objetivos da centopeia”
    (Algumasfabulas.blogspot.com) 


    

sábado, 19 de novembro de 2011

ONDE ESTÃO OS THUNDERCATS?

-HAHAHAHAHA!!!!!
        As gargalhadas ecoaram pelo cemitério! Na madrugada fria e chuvosa, nenhum mortal ousou sair de casa. Ninguém viu nem ouviu a celebração fúnebre que aconteceu naquela segunda-feira! Ao menos ninguém que estivesse vivo!
       Treze mil habitantes. Esse era o número exato de pessoas vivas no vilarejo de Kurilândia, cidade famosa por ter a mais disciplinada escola do país, a "escolinha liberdadi".
        Dez mil mortos! Esse era o número exato de cadáveres que repousavam no cemitério de Kurilândia! Porém, esse repouso estava por acabar. Nessa tempestuosa noite a estatística mudaria... tragicamente mudaria!



Sim! A forma decadente foi despertada! As gargalhadas no cemitério confirmaram o sucesso do ritual.O mal sempre vivo porta roupas novas: Mumm Ra, o de vida eterna é MIDYÁ-LIGNÁ, o sugador de almas!
        - ESPÍRITOS DA INDÚSTRIA CULTURAL, TRANSFORMEM ESTA FORMA DECADENTE EM MIDYÁ-LIGNÁ, O DESPERTADOR DE CONSUMOS ETERNOS!
        SÁBADO! 17:00
        23 MIL ZUMBIS! ESSE ERA O NÚMERO EXATO DE "PESSOAS" QUE COMPRAVAM NAS 666 LOJAS DO SCHOPPING DE KURILÂNDIA!


TEXTO: JOSMAZAR

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING PARTE 3



     
      Cristóvão ouvia a própria respiração, mas não ouviu mais os passos no corredor. O que fez com que a pessoa que veio até a porta parasse? Será que ela parou por ser ali o banheiro dos homens? Isso queria dizer que quem estava  na porta seria uma mulher. Mas que mulher ainda estaria no shopping? A resposta à Cristóvão  veio exatamente de lá de onde os passos cessaram.  
      -Faz mais de dez minutos que eu estou te esperando, piá? O que está fazendo aí dentro?
      Era a voz de Guria Maconha que Cristóvão ouvia novamente. Ela o surpreendeu outra vez. Ele já não acreditava que a moça ainda estivesse o esperando. Achava que fazia muito mais de dez minutos que permanecia parado na cabine.
       -Só mais um instantinho!  –gritou decididamente,  o rapaz. Chega de dúvidas! –pensou. Ainda estava em tempo de alcançar Guria maconha e saírem do shopping juntos. Beber vinho no Largo da Ordem... No carro dela?  
       Lá de fora do banheiro não veio nenhuma resposta ao seu grito decisivo. E a maior das surpresas da noite, pelo menos até aquele instante, veio do fundo da bacia sanitária. Algo terrivelmente espantoso aconteceu.
       A reação de Cristóvão ao que ocorreu, naquele momento, após pensar que havia decidido alguma coisa, foi apenas continuar contraindo, ainda mais, os  seus músculos. A tensão piorou.
       Sem nenhum som de descarga, a límpida água começou a se movimentar. Uma imagem formou-se no fundo do vaso sanitário. O rapaz fixou o seu olhar para o rosto que aparecia. Olhava sem acreditar no que estava vendo.
       Se fosse a cara de um estranho que aparecesse ali, ele simplesmente deixaria que um jato de urina jorrasse sobre toda aquela loucura... Mas o rosto que ele começou a enxergar  precisava ser respeitado. Ele fechou o zíper da bermuda imediatamente.
       - O que a senhora está fazendo aí, mamãe? –perguntou, Cristóvão, por impulso, ao rosto.  Não imaginava que a aparição pudesse responder. Porém, o que ouviu em seguida, imobilizou  completamente o rapaz.  A imagem  se correspondeu com ele. Ela falou:
      -Fuja de Guria Maconha, meu filho. Ela não é uma boa menina  para você, filho. Por favor, não entre no carro dela, Cristóvão! 
      -De onde a senhora a conhece, mãe? –gritou estarrecidamente, Cristóvão. Mas assim que fez a pergunta,  percebeu que não era isso que precisava compreender primeiro. Lançou outra pergunta:
      -Como a senhora veio parar aí, mãe!
      A imagem não respondeu. Ela queria apenas continuar alertando:
      - Venha para casa, meu filho. Eu estou te esperando! Acredite em mim, filho. Guria Maconha não vai levar você só até o Largo da Ordem. É claro que não! Não entre no carro dela. Ela vai te levar a um lugar aonde você não vai conseguir sair nunca mais. Eu tenho certeza do que estou falando. Por favor, meu filho. Venha para casa. Não entre no carro de Guria Maconha. Você não vai escapar dela nunca mais... Ela tem amigos que você ainda não conhece. São criaturas bem mais perigosas que ela...
      -Primeiro, me diga, mãe. Como a senhora pode aparecer aí!
      -Não há tempo de explicações meu filho. Saia correndo desse shopping enquanto Guria Maconha ainda não apresentou você às criaturas....
      -Que criaturas, mãe! –Berrou, o rapaz enlouquecidamente à aparição do rosto da mãe.
      -Saia correndo daí, filho. Você ainda pode alcançar o último ônibus... Venha para casa, Cristóvão!
      -Chega! Isso não pode ser possível! –disse,Cristóvão. E em seguida, fechou os olhos. Tentou raciocinar um pouco. A imagem na água aparecera logo após Guria Maconha vir chamá-lo. Portanto, talvez, seria o seu próprio medo de sair com a moça  que se manifestava daquela estranha forma. A imagem da mãe no fundo do vaso sanitário só poderia ser uma alucinação.
      Mas ainda estava, realmente, ouvindo a voz dizendo para ele vir para casa. Escutava mesmo com os olhos fechados.
       -Só vou abrir os olhos quando a senhora ficar em silêncio, mãe!  -disse, Cristóvão, dessa vez, sem gritar; tentando manter a calma.
       Resolveu parar a audição também. E assim,  quando tirou os dedos dos ouvidos, tudo estava em silêncio. O rosto da mãe havia sumido.  
       A água permanecia límpida e parada. Cristóvão não viu mais nenhuma movimentação. Mas em seu peito,  as batidas cardíacas continuavam aceleradas. Só tinha uma maneira de provar a si mesmo que não acreditava ser real tudo aquilo que viu. Deveria mijar sobre o vaso assombrado e acionar a descarga como se nada tivesse aparecido ali.
       Não deixou que outro pensamento tirasse a sua razão. Respirou lentamente  e deixou que a urina saísse.
      O jato de urina acumulada impulsionou-se triunfalmente. Escapou como uma manada de porcos jogando-se do precipício. Ao mesmo tempo, um fluxo de imagens começou a se exorcisar através da memória.
      Quando escolheu ver o filme do meio da primeira fileira, havia pouca gente; pois entrou na sala bem adiantado. Porém, logo, o lugar começou a encher. E quando a sala já estava lotada ele pensou : Será que havia algum elemento perigoso à retina humana na tela? Todos estavam usando óculos escuros.    
       Virando o pescoço e movendo a cabeça a procura de alguém, que como ele, não protegia os olhos, observara o quadro. Os modelos variavam em suas combinações:
       Óculos com cabelo amarrado, óculos com black power, óculos com correntes grossas no peito, óculos com grandes argolas nas orelhas, óculos com umbigo aparecendo, óculos com dianteira de ônibus para senhoras, óculos com testa saliente, óculos com cabeça raspada, óculos azul de armação branca com topete louro, óculos com boné virado para trás, óculos com cabelo de brilho molhado, óculos com boné de aba para cima, óculos com piercings, óculos mastigando chicletes, óculos com aparelhos ortodônticos, óculos com lenço de pirata...

      ( continua)
       Texto: Osmar Batista Leal
   
   
Leia também:
   Pálidas’ Drinks ( em localdoocio.blogspot.com)   
   A centopeia sem sapatos (em algumasfabulas.blogspot.com)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os vampiros estão dentro do shopping parte 2

   

      Junto ao objeto mais elegante do interior daquele shopping, Cristóvão permanecia parado. Seus olhos estavam abaixados para a louça de superfície primorosa e boca oval. Iam até a  água estancada e fixavam-se no fundo do vaso sanitário. Mas em seu cérebro havia intenso movimento. Dentro da  pequena cabine, o rapaz pensava. 
       A bexiga estava totalmente cheia. Pronta para descer pela uretra e saltar para o exterior, a urina aguardava a liberação dos esfíncteres. No entanto, estes músculos contraiam-se obedientemente. Não relaxariam enquanto não obtivessem um sinal vindo da cabeça que comandava o organismo inteiro.
        Mas Cristóvão nem sequer abrira o zíper da bermuda. Ele apenas pensava. A moça que apareceu dizendo se chamar “Guria Maconha” dominava todo o universo de  seu pensamento.
        Seu sangue circulava alteradamente pelas veias. Os vasos que distribuíam o líquido para a região frontal sofreram uma estranha e violenta pressão. De pupilas dilatadas e olhos vermelhos, o rapaz  esforçava-se. Tentava tomar o controle do próprio cérebro . Não conseguia ter a imagem que queria, concretamente formada. Tudo o que imaginava era uma variedade de cores que misturavam-se em sua memória. Uma pintura abstrata que significava “os olhos arco- íris de Guria Maconha”
      De onde veio a moça? Apareceu na poltrona ao seu lado, do nada. Não a percebeu aproximando-se! Normal. Estava concentrado no filme. Qual foi mesmo a  última cena, antes da escuridão?
      Um pequeno vulto movimentando-se dentro de uma tubulação escura. Rastejava com muita dificuldade, quase afogando-se por entre um líquido estagnado e sujo. Quando a cena ficou um pouco mais clara, reconheceu-se a forma da coisinha que se arrastava. Não era um verme! O corpo que se formou foi o de um homenzinho. Vestia uma roupa  muito engraçada. Em volta de seu pescoço havia algo que lembrava um leque. Parecia ter sido tirado de uma pintura antiga. Fugia em desespero mortal até que finalmente teve que parar. Levantou sua cabeça de forma que a barba pontuda de seu esquisito queixinho ficasse a mostra. A figurinha aflita  arregalou os  pontinhos que seriam seus olhos, e encarando os expectadores, gritou desesperadamente. E então a tela escureceu deixando bem claro que a criaturinha humana não conseguiria escapar. Alguma coisa bem maior a devorou...
      Cristóvão conseguiu lembrar alguns detalhes do filme, mas tinha dificuldades em relembrar o rosto da moça que apareceu quando as luzes se acenderam. Precisava vê-la de novo... Ou seria melhor deixar quieto?
      Mas por que  tinha que ficar analisando tanto as coisas ? Por que não mijava  logo de uma vez e saía dali. Procurava por dentes de vampiro em uma mulher só pelo fato dela aparecer no final de um filme de terror? É que,  na verdade,  o filme não terminou direito... Se não tivesse terminado as outras pessoas ainda estavam lá nas poltronas. Estavam? É claro que não.
      Doze foi o número de mulheres para as quais, Cristóvão pensou convidar para assistir “os vampiros estão dentro do shopping” , mas quando chegou o dia de vir ao cinema, resolveu nem tentar... Guria Maconha veio sentar ao seu lado sem ser convidada!
       Mesmo usando um capuz que cobria grande parte da cara, não considerava-se feio. Havia muitos caras mais feios  andando tranquilamente  por aí. Era injustamente por ele que as fêmeas não sentiam-se nem um pouco atraídas... Mas dessa vez, Guria Maconha gostou dele ! Ou ela tinha alguma intenção oculta?
      -Você não usa as palavras certas! Não sabe elogiá-las! -Disse Cristóvão, a si mesmo.
      -As mulheres querem ouvir palavras bonitas. Continuou a responder à própria mente indecisa. Após livrar-se das perguntas mentais passou a uma fase de afirmações.
      -As mulheres querem que você diga que elas são lindas! Porém, pareciam não ser frases próprias. Era como se outra pessoa falasse dentro de seu pensamento. Seria Guria Maconha que elaborava essas frases? Voltaram as perguntas. Será que ela ainda estava esperando- o lá fora? Mas afinal, quais palavras ele usou para que , até então , ela ainda o aguardasse?  Nenhuma. Disse apenas que  fosse indo na frente. Precisava dar um mijão. 
      Há quanto tempo já permanecia parado ali? Por que ainda não mijou? Os respingos de urina, no chão e perto da pia, que observara desde que entrou no banheiro mostravam que muitas pessoas passaram por ali. Mas no momento tudo estava extremamente silencioso.  Talvez não houvesse mais ninguém, além de Cristóvão dentro do Shopping. Guria Maconha também já devia ter entrado no carro que dissera ter deixado no estacionamento e ido embora.   
      O rapaz sentiu que a garganta estava seca. Precisava molhá-la com um gole de vinho. Conseguia imaginar-se andando rapidamente pelo meio das pessoas lá no Largo da Ordem, com uma garrafa de vinho na mão, procurando por Guria Maconha... Mas antes precisava livrar-se de todo o refrigerante que bebera. A água no fundo do vaso mantinha-se em seu nível constante impedindo que o cheiro de esgoto invadisse o ambiente. Sua brancura aguardava a urina cair.     
      De repente, a vontade de beber não era tudo. Cristóvão desejou, também, mastigar alguma coisa doce.  Lembrou de algo. Colocou a mão dentro de um dos bolsos da bermuda, conferindo  se não faltava  nada do que trouxe.
      Ao tirar a mão do bolso percebeu que, na pressa de sair de casa, esqueceu do relógio. Perdeu completamente a noção do tempo. Será que já fazia mais de uma hora que permanecia escondido dentro da cabine? Escondido ! Mas o que ele temia?
      -Que coisa mais palha! Precisava sair imediatamente. Não , sem  aliviar a bexiga. Decidido, puxou o zíper da bermuda para baixo.   
      Nesse momento, o silêncio da cabine foi interrompido  por passos que vinham pelo piso. Os passos cessaram na porta do banheiro. Cristóvão sentiu as rápidas batidas no coração.

       Texto: Osmar Batista Leal
    ( Continua... )

Leia também:
    “Pálidas’ drinks”
    (em localdoocio.blogspot.com)









      

sábado, 5 de novembro de 2011

"OUTRO TIJOLO NO MURO"

“Os comunistas se recusam a dissimular suas opiniões e seus projetos. Proclamam abertamente que seus objetivos não podem ser alcançados senão pela derrubada de toda a ordem social passada.Que as classes dominantes tremam diante de uma revolução comunista!Os proletários nada têm a perder a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar.
Proletários de todos os países, uni-vos!”

Trecho extraído da Obra: Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels.

      Primeiro dia na escola. Último mês da faculdade de ciência sociais.
      Com a voz rouca e com alto tom, Alienilson Cordeiro inicia sua fala, citando o Manifesto do Partido Comunista, para sua turma do último ano do ensino médio, da “Escolinha Liberdadi[1].
      Cabelos quase compridos, “barba quase barba”, camiseta e boina  Che Guevara.
      O charuto “quase  cubano” só poderia fumar fora da sala de aula, mas mantinha-os à mostra em uma caixa transparente, sobre sua mesa de professor, junto com seus livros de Karl Marx.
      A maioria dos alunos da Escolinha liberdadi, ainda não sabiam o que significava o termo “proletários”. Nunca tiveram contato com trabalhadores reais. Eram da classe burguesa, filhos dos donos dos meios de produção. O contato com “trabalhadores” se dava apenas nos jogos de vídeo game, no qual utilizavam os escravos, os servos, os proletários, para produzirem tudo que os livres, nobres, senhores feudais e burgueses mandassem.
      Alienilsom Cordeiro franziu a testa, preocupou-se:
     -Que apatia é essa? Por quê ninguém aplaudiu minha citação? Vocês nunca leram Marx? O meu visual não diz nada a vocês?
      A apatia continuava.
     Alienilsom Cordeiro resolveu tentar outra citação, mas agora, a de um jornalista francês anarquista chamado Anselme Bellegarrige:
      - “A liberdade é uma dívida que o homem tem para consigo mesmo, para com o mundo e para com as crianças que nascerão”.
      Que interpretação! Que ênfase! Que vida tiveram as palavras na voz do empolgado  Alienilsom!
       Mas nenhuma reação do público. A apatia continuava.