O jato de urina continuava batendo na parede côncava do vaso. Com a mesma intensidade, as imagens surgiam na tela mental da memória de Cristóvão. Além dos óculos noturnos, outros detalhes desfilavam como indumentária básica para a estreia de “Os vampiros estão dentro do shopping”:
Um senhor de sobretudo escarlate e uma senhora com um par de brincos em forma de dentes de alho nas orelhas, uma moça que viera ao cinema sozinha debaixo de uma elegante capa marrom importada da Transilvânia, um rapaz de terno preto ao lado de sua namorada dentro de um longo vestido branco, um menino com uma máscara de lobisomem, duas crianças vestidas iguais com dentaduras de vampiro de plástico, um jovem com um grande crucifixo de madeira no peito acompanhado de sua namorada com uma tatuagem de morcego nas costas, alguns jovens com barbichas demoniacamente de bode, um homem cheio de marcas de mordidas de mulher no pescoço acompanhado da esposa com um prendedor de cabelo em formato de estaca, um grupo de pessoas usando camisetas da sociedade oculta dos vampirólogos do Paraná, um garoto vestindo uma camiseta com a seguinte inscrição na frente “Estive no show dos Rolling Stones” e atrás, a foto do Keith Richards mordendo o Mick Jagger...
As luzes ainda não estavam apagadas quando as pessoas notaram a observação indiscreta. O senhor de sobretudo escarlate encarou o rapaz. Intimidou-o a virar-se para a frente.Cristóvão não teve coragem de mexer mais o pescoço, mas ainda havia coisas para se escutar. Mesmo depois do filme já ter começado as conversas paralelas continuavam:
-Como está cheio este cinema, amiga!
Era a fala de uma das duas senhoras que cochichavam próximas ao assento de Cristóvão.
-Por falar em “cheio”, amiga, o que é essa saliência na sua bolsinha?
-É um volume de Bram Stoker, amiga. Quero conferir se “Os vampiros estão dentro do shopping” é mais uma adaptação de Drácula.
-Nada como o nosso Trevisansinho! Concorda, amiga?
Alguém soprara um sinal, avisando as duas senhoras que as primeiras cenas já estavam projetando-se. Uma delas ainda resmungara antes de cessar a conversa:
-Anti-éticos! Será que pensam que somos cegas?
E quando a urina estava quase esgotando-se da bexiga de Cristóvão, sua memória retrocedeu há alguns dias atrás. Saiu da sala de cinema e foi buscar uma outra sala, em algum lugar da cidade. O rapaz lembrou-se, de repente, do consultório do doutor César.
-Quando eu era jovem eu também gostava de ler histórias em quadrinhos. Tenho uma coleção da Marvel Comics guardada em casa, só que o meu filho não gosta de ler nem os quadrinhos... Esse Gorila Musculoso estampado na sua camiseta eu não conheço. É algum novo vilão?
Foi exatamente com essas palavras que, na manhã de algumas semanas atrás, o médico apresentava-se ao jovem que procurava-o. Atrás de seu bigode grosso escondia-se um sorriso falso.
A micção havia acabado. Finalmente, Cristóvão estava pronto para sair da cabine e , ainda, alcançar Guria Maconha. Não ouvira mais a sua voz depois que ela veio até a porta do banheiro apressá-lo. Talvez ela o aguardasse no piso. Mas enquanto fechava o zíper da bermuda olhou para a estampa no próprio peito. Estava usando a mesma camiseta do dia da consulta. Lembrou também da resposta que dera ao médico:
-Não é vilão, doutor. O Gorila Nervoso é o meu super-herói favorito!
E, da mesma forma que naquela manhã, endireitou-se fazendo com que o tecido esticasse um pouco e aparecesse escrito “Gorila Nervoso”.
-O meu problema, doutor é que já completei dezoito anos, e ainda tenho um corpo de dezesete!
Dizer isso fora o que bastara para que o médico tirasse a caneta presa em sua camisa branca , escrevesse num papel uma palavra ininteligível, e entregasse-lhe a receita.
Cristóvão abaixou mais uma vez a cabeça e tentou imitar a cara sisuda da fera em seu peito. Poderia disfarçar a sua fisionomia preocupada, deixando-a um pouco mais animal, antes de alcançar Guria Maconha. E ao olhar para o gorila, sentiu que os olhos da fera cobravam-lhe alguma coisa:
-Cara! Você ainda não comeu por quê? Gastou todo o dinheiro que sua mãe deu para comprar um tênis novo na consulta e na drogaria e agora vai deixar o remédio derreter no bolso?
O rapaz imitava o Gorila Nervoso enquanto cobrava de si mesmo ,uma atitude.
-A Guria maconha não vai gostar dessa sua cara de medo!
Cristóvão saiu da cabine, lavou a mão, e antes de passar pela porta do banheiro, parou. Colocou a mão dentro de um dos bolsos e tirou uma bala. Na embalagem estava escrito Decadurabolin Caramelizado.
Texto: Osmar Batista Leal
( Continua... )
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“Pálidas’ Drinks”
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