sábado, 10 de setembro de 2011

O CORPO


O CORPO...

            Escuridão! Cinco horas da manhã... Um lugar qualquer.
            Os gritos do relógio quebram o silêncio...
Automaticamente um certo corpo “verticaliza-se”. Aparentemente parece despertar... Aparentemente seus olhos parecem se abrir.
            O corpo anda pelas dependências de sua morada. Os primeiros “rituais” são iniciados, tudo está “normal”. Nitidamente em seu semblante destacam-se o desânimo e a decepção com a relação “espaço-tempo”, ou melhor, com o maldito relógio. É hora “disso”, daqui a pouco será hora “daquilo”...  E o tempo passa, e a vida passa...  E o corpo? Vive? Não! O corpo passa.
            Trevas! O corpo caminha. Ainda está escuro lá fora. Ele e outros corpos vão ao encontro do “corpo maior”, o corpo transporte, o ônibus no qual juntos seguirão viagem...
            Cada corpo tem uma parada pré-determinada, mas a viagem é a mesma para todos.
            Para onde vão os corpos? Ao mesmo lugar que foram ontem, e que provavelmente irão amanhã... Um lugar estacionário na história dos corpos, um lugar onde o passado, o presente e o futuro de nada se distinguem.
            A viagem dos corpos foi sempre a mesma, é sempre a mesma e continuará sendo sempre a mesma se tais corpos não se derem conta de sua humanidade, de seu ser, da importância de seu trabalho...
-   Mãos para a direita! Mãos para a esquerda! Movimento acima, movimento abaixo!
- Apertem os botões!
Ordens, mandos e desmandos:
-    Faça isso, faça aquilo! Deixe de fazer isso, deixe de fazer aquilo!
E automaticamente o(s) corpo(s) obedece(m)!
           -   Agora vão buscar o “ossinho”!
E automaticamente os corpos vão buscar o ossinho, estão condicionados a correr atrás do ossinho. E o que ganham os corpos?
Nada! Os corpos não ganham, os corpos trocam! Seu suor, sua dignidade, sua própria humanidade, tudo em troca do verbo Ter, o “sacerdote do capitalismo”, o ter que significa não possuir e sim ser possuído, o ter que é consumir.
            Foi assim, é assim e programaticamente assim caminha a humanidade...
-          Faz parte! Propaga a mídia.
-          Faz parte! Repetem os idiotas!
 E essa é a única conjugação do verbo fazer, o verbo condenado a extinção!
             A sirene berra:
Tzsuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmm...
 E os corpos voltam para suas casas:
-  Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou!
Eu volto, eu volto, pra fábrica amanhã eu volto!
E o dia se passou. O tempo se passou. E os corpos?
Ganharam tempo? Ganharam conhecimento?
Não! Os corpos perderam vida!
           No “palco” sempre a mesma encenação, sempre os mesmos personagens: livres e escravos, servos e senhores, patrícios e plebeus, patrões e empregados. Em suma, dominadores e dominados.
E o trabalho? No que se transformou o trabalho?
Nas algemas da desumanização. Na domesticação do trabalhador.
E o trabalhador? No que se transformou o trabalhador?
            Em um corpo. Algo alheio a si próprio. Trabalhador como primeiro nome. Alienação como sobrenome.
                                                            Texto: Josmazar

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