terça-feira, 13 de setembro de 2011

O emaranhado

                             


  O emaranhado

      “Não é agradável bloquear  a passagem
       Não é agradável ir para a prisão ...
       Não é agradável carregar bandeiras
       Não é agradável sentar no chão...
       Você já nos disse uma vez
       Você já nos disse duas vezes ...
       Mas se esse é o preço da liberdade
       Nós não nos importamos”  
                   ( It isn’t nice – Malvina Reynolds)
       
       Rui passeava no bosque. Uma folha caiu de uma árvore. Não gostou de como ela caiu no chão. Desejou virar a folha. Agachou-se e levou a sua mão até ela. O guarda apareceu imediatamente.
      - Não pode fazer isso, senhor!
      - Vou apenas virar a folha!
      - Tem que pedir autorização na Secretaria da Árvore.
      - Onde fica?
      - No final do bosque. Eu dou o endereço.
      Meia hora depois, o homem estava na entrada da tal secretaria. Ficou apenas vinte minutos esperando para ser atendido. Uma mulher o recolheu numa sala e perguntou o que ele gostaria.
      -Virar uma folha.
      - Excelente projeto, senhor. É de sua autoria?
      - Sim.
      - Preencha esta fichinha, por favor.
      Ele retirou todos os documentos da carteira, preencheu duas vias e pagou uma taxinha. A moça leu e devolveu uma das vias dizendo:
      - Ótimo. Fico com uma e a outra o senhor apresenta na Secretaria da Folha Verde.
      - Obrigado. É longe ?
      - A meia hora daqui.
      O homem não entendeu bem o endereço de forma que levou uma hora para encontrar a Secretaria da Folha Verde. Desta vez aguardou quarenta minutos até ser atendido por um senhor de óculos. Mostrou a via, preencheu uma maior, pagou taxa e entregou ao senhor de óculos que passou atentamente com seus olhos por cima do que Rui escreveu na ficha e parou- os  para o  seguinte detalhe:
      - Está incompleta. Não consta qual é o bosque no qual está a  folha que o senhor quer virar.
      - Bosque  Ecológico.
      - Não é comigo. É na Secretaria do Tronco de Árvore. Mas eu vou dar uma autorização. Desça a escada e fale com o rapaz da portaria. Mostre a minha autorização para que ele lhe dê o endereço da Secretaria do Tronco de Árvore.
       Alguns meses depois, Rui voltou ao bosque com uma pastinha azul cheia de papéis assinados. Ainda era o mesmo guarda que estava no local. Apresentou entre todos os papéis, a assinatura do chefe da secretaria que o autorizava a virar a folha. O guarda pegou a autorização, leu e respondeu:
       - Mas o vento já soprou aquela folha daqui, senhor!

    Texto: Osmar Batista Leal  
       
     

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