O emaranhado
“Não é agradável bloquear a passagem
Não é agradável ir para a prisão ...
Não é agradável carregar bandeiras
Não é agradável sentar no chão...
Você já nos disse uma vez
Você já nos disse duas vezes ...
Mas se esse é o preço da liberdade
Nós não nos importamos”
( It isn’t nice – Malvina Reynolds)
Rui passeava no bosque. Uma folha caiu de uma árvore. Não gostou de como ela caiu no chão. Desejou virar a folha. Agachou-se e levou a sua mão até ela. O guarda apareceu imediatamente.
- Não pode fazer isso, senhor!
- Vou apenas virar a folha!
- Tem que pedir autorização na Secretaria da Árvore.
- Onde fica?
- No final do bosque. Eu dou o endereço.
Meia hora depois, o homem estava na entrada da tal secretaria. Ficou apenas vinte minutos esperando para ser atendido. Uma mulher o recolheu numa sala e perguntou o que ele gostaria.
-Virar uma folha.
- Excelente projeto, senhor. É de sua autoria?
- Sim.
- Preencha esta fichinha, por favor.
Ele retirou todos os documentos da carteira, preencheu duas vias e pagou uma taxinha. A moça leu e devolveu uma das vias dizendo:
- Ótimo. Fico com uma e a outra o senhor apresenta na Secretaria da Folha Verde.
- Obrigado. É longe ?
- A meia hora daqui.
O homem não entendeu bem o endereço de forma que levou uma hora para encontrar a Secretaria da Folha Verde. Desta vez aguardou quarenta minutos até ser atendido por um senhor de óculos. Mostrou a via, preencheu uma maior, pagou taxa e entregou ao senhor de óculos que passou atentamente com seus olhos por cima do que Rui escreveu na ficha e parou- os para o seguinte detalhe:
- Está incompleta. Não consta qual é o bosque no qual está a folha que o senhor quer virar.
- Bosque Ecológico.
- Não é comigo. É na Secretaria do Tronco de Árvore. Mas eu vou dar uma autorização. Desça a escada e fale com o rapaz da portaria. Mostre a minha autorização para que ele lhe dê o endereço da Secretaria do Tronco de Árvore.
Alguns meses depois, Rui voltou ao bosque com uma pastinha azul cheia de papéis assinados. Ainda era o mesmo guarda que estava no local. Apresentou entre todos os papéis, a assinatura do chefe da secretaria que o autorizava a virar a folha. O guarda pegou a autorização, leu e respondeu:
- Mas o vento já soprou aquela folha daqui, senhor!
Texto: Osmar Batista Leal
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