“Os comunistas se recusam a dissimular suas opiniões e seus projetos. Proclamam abertamente que seus objetivos não podem ser alcançados senão pela derrubada de toda a ordem social passada.Que as classes dominantes tremam diante de uma revolução comunista!Os proletários nada têm a perder a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar.
Proletários de todos os países, uni-vos!”
Trecho extraído da Obra: Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels.
Primeiro dia na escola. Último mês da faculdade de ciência sociais.
Com a voz rouca e com alto tom, Alienilson Cordeiro inicia sua fala, citando o Manifesto do Partido Comunista, para sua turma do último ano do ensino médio, da “Escolinha Liberdadi” [1].
Cabelos quase compridos, “barba quase barba”, camiseta e boina Che Guevara.
O charuto “quase cubano” só poderia fumar fora da sala de aula, mas mantinha-os à mostra em uma caixa transparente, sobre sua mesa de professor, junto com seus livros de Karl Marx.
A maioria dos alunos da Escolinha liberdadi, ainda não sabiam o que significava o termo “proletários”. Nunca tiveram contato com trabalhadores reais. Eram da classe burguesa, filhos dos donos dos meios de produção. O contato com “trabalhadores” se dava apenas nos jogos de vídeo game, no qual utilizavam os escravos, os servos, os proletários, para produzirem tudo que os livres, nobres, senhores feudais e burgueses mandassem.
Alienilsom Cordeiro franziu a testa, preocupou-se:
-Que apatia é essa? Por quê ninguém aplaudiu minha citação? Vocês nunca leram Marx? O meu visual não diz nada a vocês?
A apatia continuava.
Alienilsom Cordeiro resolveu tentar outra citação, mas agora, a de um jornalista francês anarquista chamado Anselme Bellegarrige:
- “A liberdade é uma dívida que o homem tem para consigo mesmo, para com o mundo e para com as crianças que nascerão”.
Que interpretação! Que ênfase! Que vida tiveram as palavras na voz do empolgado Alienilsom!
Mas nenhuma reação do público. A apatia continuava.
De repente tudo escureceu.Todos ali dentro viram apenas a palavra Fim, surgindo no meio da tela. Simultaneamente, a música “Bela Lugusi is dead” da banda Bauhaus , começou a ser cantada. A versão foi executada pelas cantoras do Nouvelle vague.
O som e as luzes foram estranhados pelos espectadores:
-Isso é final de filme?” -Alguém gritou. E após o grito, assobios e vaias tumultuaram o ambiente. As pessoas reagiram como se o filme não tivesse terminado, mas interrompido. Nunca viram um final como esse.
-Que coisa mais acadêmica!- Outra pessoa manifestou-se. Mas, das paredes, as arandelas continuaram com suailuminação gradativa. Logo, a música acabou e não restou nem mais os letreiros. Havia apenas a tela branca e a luz mal educada nas caras enraivescidas.
Uns levantaram-se, resmungando qualquer coisa, caminharam entre as fileiras de poltronas e foram embora. Conseguiram passar pela porta, antes que a saída ficasse congestionada. Outros deixaram o lugar aonde estavam acomodados, maspararam no meio do caminho, xingando a tela branca na parede. As vozes gritavam, relembrando cenas do filme:
-Perdemos tanto tempo acompanhando a preparação dos heróis só para ver sua rápida e ridícula derrota...
-O filme deveria ter pelo menos mostrado de onde surgiram aquelas criaturas esquisitas que derrubaram o avião...
-Como essa história pode ter acabado sem ao menos revelar o que realmente estava acontecendo?
-As criaturas simplesmente apareceram, atacaram e esconderam-se novamente. Podem voltar a atacar a qualquer momento! O filme terminou deixando elas livres para assassinar quem quiserem...
Cristóvão, com seu rosto escondido dentro do capuz da jaqueta, vestindo uma bermuda com vários bolsos, foi o último espectador a levantar da poltrona. Assim como os outros, não gostou do filme, só que não estava interessado em discutir sobre isso. Queria apenas passar por aquelas pessoas que gritavam no meio das fileiras e chegar até a porta. Mas alguém esbarrou em seu braço, antes que saísse do lugar.
O rapaz virou-se e uma moça, ainda sentada, sorria, olhando para ele. Quem é essa guria ? – pensou. Não era essa guria que estava sentada ali antes. A cor dos lábios dela era vermelha como a poltrona aondesentava.
A moça usava um leve vestido claro. Seu sobretudo era basicamente preto, mas os óculos tinham as cores do arco- íris. No cabelo curto, pintado de branco, destacava-se uma mecha negra. Contudo, o que mais chamou a atenção do rapaz foi o comportamento sossegado que a moça apresentava.
Ela estava parada em meio ao alvoroço como se ainda esperasse a continuação do filme. Uma expectadora que não olhava para a tela. Seu olhar estava fixo em Cristóvão. Por alguns instantes, ele sentiu-se como se fosse consigo a continuação que ela aguardava.
-E aí ... qual é o teu nome? Perguntou Cristóvão.
-Fique calmo- disse ela .
-Sente mais um pouco. –continuou ela.
Ele obedeceu. Enquanto a fila de saída ia ajeitando-se, sentou-se. Isolou-se por um momento do barulho da sala. Elaperguntou:
- Qual que é teu nome, piá?
- É Cristóvão .
-Não tem, tipo, nenhum apelido, piá?
-Por quê? – Perguntou, desconfiadamente, Cristóvão. Talvez ela soubesse alguma coisa sobre ele.
-Por nada, piá. Todo mundo tem um apelido.
-Você não vai me dizer o teu nome também, guria?
A moçarespondeu tranquilamente :
-Guria Maconha.
- Teu nome é muito massa! -Disse, admirado, o rapaz.
- Você curte ir no Largo da Ordem? -perguntou, Cristóvão.
- Com certeza! –respondeu, ela.
-O que achou, tipo, do filme? –Ela perguntou, acrescentando um elemento a mais na conversa e ao mesmo tempo trazendo de volta o pensamento de Cristóvão para dentro da sala de cinema.
-Muito palha. Faltou ação nos heróis! Faltou terror nas criaturas! Eu esperava que elas derrubassem mais aviões e matassem mais pessoas. Achei que o bagulho seria mais pira!
- Pode crer, piá, você manja de cinema mesmo!
Do mesmo modo que o saco de pipocas que a maioria dos espectadores trouxe , ao entrar na sala , logo ficou vazio; consumiu-se também o alvoroço ali dentro. Os espectadores falaram muito mal do filme, mas não foi o seu conteúdo o motivo de sua revolta. Acomodados no declive das poltronas, mantiveram-se atentos à seqüência de cenas durante mais de uma hora e meia. A histeria coletiva veio à tona quando a luz os iluminou. Não aceitaram ser surpreendidos pela claridade. Mas logo, toda a raiva foi descarregada. Acalmaram-se e foram embora.
Ao voltar sua atenção para o ambiente, Cristóvão percebeu que não havia mais barulho. Ele e Guria Maconha eram os últimos na sala. Porém, Uma súbita sensação de que o Shopping já está fechado preocupou instantaneamente o rapaz.
A moça permaneceu calma. Apenas a mecha de cabelo e o vermelho de seu batom movimentaram-se enquanto ela perguntou:
- E aí, tipo, vamos beber um vinho, piá, lá no largo!
A sensação ruim de estar fechado dentro do shopping diminuiu com a possibilidade de sair dali com a guria- maconha. Cristóvão Ficou ansioso emconhecê-la melhor em um espaço mais livre.
-Assim: Meu carro tá, tipo, lá no subsolo, piá. Vamos descer! –Convidou , a moça. E então resolveu levantar da poltrona vermelha.
Ele observou o rosto maquiado de branco. Uma lua cheia pairando lá fora sobre todos os prédios de Curitiba passou pela imaginação de Cristóvão... Mas sentiu que ainda precisava fazer algo antes de deixar o local.
-Faz o seguinte, guria . Vá indo na frente. Vou procurar o sanitário e já te alcanço. Tenho que dar um mijão!
-Sério! Disse Guria Maconha e caminhou entre as fileiras de poltronas.
CONTINUA...
Texto : Osmar Batista Leal
( Leia também“Pálidas’ drinks” a partir de 2/11/2011 em localdoocio.blogspot.com )
No interior do retângulo de concreto, as poucas janelas existentes não conseguem arejar o ar. A única porta existente está fechada ! Vigiada!
-É proibido reclamar! Dizem os mais de cem cartazes multicoloridos fixados nas paredes do retângulo de concreto.
- É proibido se expressar! Anuncia a voz forte e autoritária nas caixas de som de toda a “escola”!?!
Para manter os 40 alunos ocupados, o quadro negro está cheio, cheio pela segunda vez nessa mesma aula. Cheio pela sétima vez nessa mesma tarde de sexta-feira!
O vigia está atento à porta. Observa os olhares daquelas crianças trancafiadas, as quais fitam o quadro negro e automaticamente reproduzem o seu conteúdo nos cadernos. A maior parte delas tem entre 8 e 10 anos. Todas em silêncio absoluto, todas uniformizadas, todas obedientes e comportadas.
Observar e controlar! Vigiar e punir! Domesticar!
Essas são as funções do vigia! Profissional bem remunerado, bem conceituado, bem treinado!
Observar e controlar! Vigiar e punir! Domesticar!
Estesão os lemas da nova sociedade. São os alicerces de uma nova educação! É claro que estamos falando do futuro! Futuro que traz a sociedade perfeita, a sociedade sob controle!
Todos os retângulos de concreto da “escolinha liberdadi” funcionam perfeitamente. Não há mais vagas! No próximo ano, mais retângulos serão construídos, mais vigias serão contratados e novas crianças serão mecanizadas.
Os pais estão felizes, pois seus filhos apenas dizem “sim senhor” e “sim senhora”. Nenhuma criança brinca, nenhuma criança se suja, nenhuma criança tem infância!
As propagandas da “escolinha Liberdadi” estão o tempo todo na TV:
-Agora posso assistir o jogo e tomar minha cerveja em paz! Isso é que é vida!
-Agora posso assistir minha novela sem incomodações! Isso é que é vida!
- Sim! Nossos filhos estão depositados na “escolinha liberdadi”, o lugar ideal para a acomodação de nossos filhos! Matricule já o seu!Porque o nosso já está lá! HAHAHAHA!
A propaganda não para:
- Oi Pessoas! Me chamo Tetê, e meus 666 filhos também estão depositados na “escolinha liberdadi”, e o que é mais legal...nos três horários! Isso mesmo! Nos três horários! Imaginem vocês... posso acordar tarde, ir ao shopping, assistir o vídeo show, à malhação, e ver todas as novelas!Uau! Foi graças à escola liberdadi que consegui um tempinho para mim!Tenha um tempinho para você também! Matricule seus pimpolhos na “escolinha liberdadi”, a escola que prepara o seu filho para passar na provinha Brasil, no Enem e em todos os vestibulares... ele vai se transformar numa máquina de fazer provas! E se você quiser, nem precisa ver a criança! Isso mesmo! Nem precisa conviver com a criança! Os vigias da "escolinha da liberdade" a trazem e a levam em casa quando você estiver dormindo! Para quê se incomodar com a educação das crianças? Ligue já! Nossa diretora Bel terá muito prazer em receber a sua mensalidade! Venha nos fazer um visita! Mas atenção! Não aceitamos cheques e nem palpites! Só dinheiro mesmo!
Me desculpem! Preciso parar com o texto imediatamente! Acabei de ver no noticiário que a secretaria da boa educação, de nossa cidade, anunciou que as crianças de 5 anos já podem perder a infância e estão "aptas" para serem matriculadas na "escolinha liberdadi"... o meu filho já tem seis anos!!!
“Todas as nossas línguas são fruto da arte. Durante muito tempo se procurou saber se havia uma língua natural e comum a todos os homens. Sem dúvida existe uma: É a que as crianças falam antes de saber falar.”
( Jean Jacques Rousseau)
-Boa noite. Meu nome é Sério. Professor Sério! E hoje eu estou aqui para explanar sobre três tipos de educação observados por Jean Jacques Rousseau. Mas antes de começar a falar, gostaria de dizer que não vou admitir, durante a minha fala, nenhuma interrupção...
-cloac...!
-Mas o que é isso? Por acaso tem algum palhaço aqui na frente? Ou vocês me contam quem foi o engraçadinho que fez“cloac” ou eu expulso todos vocês da sala...Tudo bem. Desta vez passa, mas da próxima... Vamos iniciar pela “Educação da natureza”. Trata-se do desenvolvimento de nossos próprios órgãos...
-O desenvolvimento de meus próprios órgãos me permite pular, correr pela sala, saltar sobre as carteiras, mexer nas coisas alheias, incomodar aos outros...
-Mas que absurdo! Volte para o seu lugar palhaço.Vá sentar... Temos também “A educação dos homens”. É o uso que nos ensinam a fazer do desenvolvimento de nossos próprios órgãos...
-Se eu não posso pular, correr pela sala, saltar sobre as carteiras, mexer nas coisas alheias, incomodar aos outros... Então eu quero sair daqui! Alguém abra essa porta! Eu quero sair!
- Cale a boca, palhaço! Não grite! Você está pensando que está em sua casa? E finalmente “A educação da coisas”. É a experiência que adquirimos das coisas e do mundo ao nosso redor que nos afetam... Que de alguma maneira nos afetam...Não vai interromper-me agora Palhaço?
-Agora não. Agora eu aprendi a sentar e ficar bem quietinho!
No discurso de Martin Luther King pela igualdade, o verbo sonhar é referência primeira. É uma menção poética sobre a possibilidade concreta de liberdade e justiça entre os homens.
Na minha visão sobre a humanidade de hoje, a poesia está definhando, prestes a morrer.
Percebo a cada dia, nas experiências com o outro, que o processo de desumanização é intenso e irreversível; similar a uma praga que se espalha, a um vírus que resiste ao bom senso, que se alimenta das injustiças e do vale tudo pelo poder. Tal vírus se prolifera a partir da covardia, explicitando o medo da liberdade nunca antes conhecida. Por quê aceitamos o jugo? Por que estamos quase sempre ajoelhados reproduzindo o "amém"? Que doença é essa que infecta nossa individualidade com ideologias alheias e impositivas?
A resposta está nas faces sem expressões próprias, nas cabeças baixas esperando ordens... é a doença da submissão!
"O carinho, como o jogo e a comida, exige certa dosagem"
( Anton Makarenko)
Mochila com formato de ursinho sobre as costas, piercing no nariz, argolonas nas orelhas, trancinhas, banda na testa, touca na cabeça, boina por cima da toca... A linda garotinha ia para o colégio. Caminhando lentamente para chegar na segunda aula, ela atravessava o bosque de uma árvore só, quando de repente, foi assaltada por um pensamento horrível: Sou uma linda menininha de dez anos que passa pelo bosque para chegar na escola, pensando no menino com o qual ficou ontem à tarde. Cara! O que há de errado nisso? Nada. Não fosse esta uma história de horror e loucura. Um jovem maníaco, um velho pedófilo ou qualquer outra criatura estranha vai me atacar a qualquer instante. Eu preciso andar mais rápido! Socorro!
Ao se sentir insegura, ela começou a correr. Sem olhar para trás nem para os lados, escapou daquele bosque de uma árvore só. Mas em sua saída às pressas , não percebeu que o relógio caiu de seu punho.
Nesse momento, olhos detrás da árvore viram que alguma coisa caíra da mão da linda garotinha. E então você já pode perguntar: -Quem é essa criatura esquisita que fica escondida atrás da árvore que há nesse bosque? Primeiro vamos falar sobre a única árvore existente no bosque. Esse fato ocorreu em um bairro chamado Campo Comprido. Depois de deixar que quase todas as árvores do bairro fossem derrubadas para a construção de prédios, a "cidade ecológica" decretou uma multa de três salários mínimos para quem derrubasse a última árvore.
As horas se passaram. A linda garotinha encontrava-se dentro da sala de aula, olhando a prova de matemática em cima da carteira, concentrada no cara com o qual havia ficado na hora do recreio, quando seu telefone celular tocou. O som tirou a concentração das outras crianças. Todos levantaram seus olhos da prova para a menina que entregou a folha, sem escrever nada nela, à professora e saiu correndo da sala. Levando o celular à orelha correu para trás da escola.
Um menino de topete, gazeteando atrás do colégio, observou quando a linda garotinha chegou perto dele, encostou-se na parede, e começou a escutar a conversa: -Alô! Disse a linda garotinha.
-Alou! –respondeu uma voz feia.
-Quem gostaria de falar comigo? –perguntou a linda garotinha sem muita curiosidade.
- Sou a criatura do bosque.
- Quem te passou o meu número, criatura do bosque?
- Sem muitas perguntas. Isto é um conto e não um romance.
- Então diga logo o que você quer, criatura !
- Bom, é o seguinte: Estou com o seu relógio!
-Meu relógio! Foi então que ela notou que o relógio, cuja pulseira não andava prendendo direito, havia desaparecido de seu pulso.O objeto era um presente que ganhara da mãe no aniversário passado. Já estava na hora de usar uma coisa mais na moda.
-Estou com seu relógio. –repetiu a criatura. Mas não precisa se preocupar, linda garotinha. Vou devolver isso a você. Deixa eu ver. Agora são dezesseis e... Esteja aqui no bosque até as dezesete!
-Você está usando o meu relógio sem a minha permissão!
-Sem frescuras, linda garotinha! . Eu espero sentado no banco perto da árvore. Estou usando uma camisa branca por dentro de uma calça azul marinho...
-Não estou mais interessada nesse relógio. Guarde para você. Desligou o celular na cara da criatura.
-Massa, cara! Disse o gazeta chegando mais perto da linda garotinha, elogiando a maneira como ela tratou a criatura do bosque. O horário de aulas passou. A linda garotinha se despediu de Topeti e saiu das dependências do colégio. Enquanto ia para casa lembrava dos momentos que passara com o moleque atrás do colégio: Todos os meninos com os quais ela ficava usavam topete. Mas o topete de Topeti era diferente. O topete de Topeti era "o Topete". O gel que ele usa deve ser... De repente, a linda garotinha foi assaltada por outros pensamentos: Sou uma linda menininha voltando para casa que vai cortar caminho pelo bosque. Cara! O que há de errado nisso? Nada. Se eu não tivesse deixado alguém com muita raiva de mim. É óbvio que a criatura do bosque ainda está me esperando atrás da árvore. Papai sempre diz à mamãe que devemos juntar a comunidade e passar a motosserra nessa árvore. É muito perigosa. Mas mamãe sempre responde “Não diga isso! Alguém ouve você falando, outro corta a árvore e pensam que foi você... São três salários mínimos de multa!”
Não arriscou a passar pelo caminho de sempre. Deu a volta por outra rua. Os meninos da outra rua estavam lá. Sete ou oito mais ou menos. Deixaram a linda garotinha passar sem apavorar muito. Apenas tomaram a sua boina, ficaram com a touca que usava por baixo da boina, encheram a menininha de bicudões (“para ela largar mão de ficar se achando”) e advertiram: -Se você passar pela nossa rua de novo, guria... Nós não vamos deixar baixo!
Ao virar a esquina , entrando na rua de sua casa, a linda garotinha observou alguém parado perto do seu portão: Que magrinho esquisito. Não usa nenhum piercing, não tem gel no cabelo e nem veste roupas de marcas. Só pode ser a criatura do bosque! Pensou em voltar correndo pedir ajuda para os meninos da outra rua. Mas pensou que talvez não fosse necessário. Ao vê-la a criatura apenas jogou o relógio em sua direção e afastou-se, abrindo caminho. Ela não conseguiu agarrar no ar. Juntou o relógio no chão e passou correndo para dentro do lote. Com o portão fechado e ocadeado batido, a linda garotinha, curiosamente resolveu gritar com a criatura que já ia longe, voltando para trás da árvore.
Já sem perigo, dentro do lote de casa, com o portão fechado e o cadeado batido, ela resolveu gritar:
-Ei, maluco! –Ele virou-se e parou para ouvir o que ela queria:
-O que quer que eu acredite com isso? Que o bosque perto dá escola não é perigoso?
- Quero que acredite apenas que o bosque não é lugar de você deixar aquilo que não quer mais!
Marcelo Macedo Reginaldo está de boca aberta... o número de notas de cem no balcão da portaria ultrapassou o valor das contribuições de toda a semana...
-Nossa! Quanta grana! Além de haver comprado a bíblia mais cara e depositado dinheiro nos envelopes e urnas, o simpático sujeito ainda contribuiu para a campanha de ajuda aos religiosos aposentados por “invalidez”! Colaborou na compra de mais de cem cruzes para a decoração do Acapulcos Dancing; contribuiu com a associação dos religiosos jogadores de truco e na compra das correntes banhadas a ouro para o dia da corrente da fé, na quarta-feira!
-Que jovem burro, quer dizer bom! Com todo esse capital, logo comprarei emissoras de tv e rádio, hahahah! Mas espere um pouco, como ele sabia meu nome? E pareceu-me que usava um par de tênis todo redondo... deve se a útima moda! Isso não importa, o que interessa é que com essas doações, com certeza, ele vai direto para o céu. Não faz nem escala no purgatório...HAHAHAHA!
Dentro do acapulcos todos estão eufóricos. Muita adrenalina, muita alegria, muita paz nos corações! Mas repentinamente as luzes se acendem, o barulho cessa, o tempo para! Alguém adentra ao salão...
Ele é alto, magro! Sua face está sorridente! Encara cada uma daquelas pessoas que estão ali, paralisadas, interpretando com perfeição o papel de estátuas, todas coadjuvantes do diálogo que está por vir.
Seu rosto aparenta humanidade mas não demonstra nenhuma expressão sinificativa. Ao mesmo tempo difere e se parece com o rosto de todos que estão ali... basta apenas dizer que ele não é mais um no meio da galera... mas não é mesmo...
O silêncio se rompe... Merliseu cumprimenta o estranho:
-Oi Amigo! Bem vindo à noite da bíblia. Eu sou Merliseu.Se quiser posso lhe ensinar alguns passinhos de dança, para você poder se enturmar com a galera... que tal?
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! Um berro maligno e gutural atropela as palavras de Merliseu... e a transformação começa... a raiva e a fúria daquele ser até então aparentemente humano se espalham pelo ar!
Ninguém se mexe! Continuam como estátuas sem participarem da dantesca cena que se inicia!
A metamorfose se acelera. O tecido epitelial se desprende do corpo que parecia humano, deixando à mostra uma pele rugosa verde e amarela. O que era um rosto dá lugar a uma máscara de larvas em movimento... há buracos no lugar do que antes eram os olhos, o nariz e a boca. A pele era apenas uma casca... a criatura está voltando a ser o que realmente é... a revelação é nojenta, assustadora, mas na face de Merliseu não há pânico, nem medo! Apenas a tristeza é perceptível em seu semblante.
O corpo escamado com um longo rabo peludo se movimenta em direção ao garoto de jaqueta amarela, que não foge, que não grita, que não emite nenhuma reação possível de se imaginar...
As suspeitas de Marcelo Macedo Reginaldo se confirmam: os pés da coisa escamada são de fato redondos, com cascos! Assemelham-se aos do deus dos pagãos, Baco, ou mesmo aos mais comuns bodes sacrificados em holocaustos, nas mais diferentes culturas religiosas, tanto monotéistas quanto politeístas.
Merliseu encara a criatura, enquanto dois chifres, também verde-amarelos, despontam da cabeça da coisa gosmenta! Ele sabe quem é, mas não exatamente o que quer...
- Já chegou a minha hora? Você veio me buscar? Responda-me, "capeta do Brasil". Não me deixe angustiado! Eu já havia me acostumado por aqui...
- Calma! interrompe o capeta do brasil:
- Não fique triste, garotinho, não vim lhe buscar. Não, ainda.
Merliseu sorri e dá um salto de alegria:
-Graças ao diabo! Que bom! Vou ter mais tempo entre os desumanos, quer dizer, humanos! Estou muito feliz por isso Capeta do Brasil!
-Nós também soldado! Você já tem mais de cinco mil seguidores, seu blog está bombando! Os acessos em seus vídeos no you tube já ultrapassaram o do Justin Biber... claro que tive que conversar com ele... ficou irritado com a concorrência, mas como jogamos no mesmo time, a razão capitalista prevaleceu no final! HAHAHA!,
-Está cumprindo bem sua missão! Lá embaixo já temos uma boa quantidade de almas! Vim aqui apenas para conferir pessoalmente seu poder carismático e dizer que ficará por mais um século entre os desumanos, quer dizer, humanos, e além do mais você dança bem mesmo... HAHAHA !
- Agora chega de conversa, vou recolocar minha casca humana e dar um pulo ao shopping... estou sentindo falta da dieta do palhaço: Vou pedir dois Bigcíssimos Macs e dez porções de gorduras trans, além de 2,5L da descalcificadora de ossos... É ISSO AÍ!
A luzes se apagam novamente, o som tocado pelo dj está ensurdecedor!
Merliseu dança, dança como nunca, que energia... que carismático, que capetinha...
Tudo está normal! A galera grita, se movimenta, agita! Nada de estranho parece ter acontecido ali... E na jaqueta de couro amarela de Merliseu, duas palavras se destacam: