segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A CRIATURA DO BOSQUE DO CAMPO COMPRIDO



        "O carinho, como o jogo e a comida, exige certa dosagem" 
        ( Anton Makarenko)
      Mochila com formato de ursinho sobre as costas, piercing no nariz, argolonas nas orelhas, trancinhas, banda na testa,  touca na cabeça, boina por cima da toca... A linda garotinha ia para o colégio.
      Caminhando lentamente para chegar na segunda aula, ela atravessava o bosque de uma árvore só, quando de repente, foi assaltada por um pensamento horrível: 
      Sou uma linda menininha de dez anos que passa pelo bosque para chegar na escola, pensando no menino com o qual ficou ontem à tarde. Cara! O que há de errado nisso?
      Nada. Não fosse esta uma história de horror e loucura. Um jovem maníaco, um velho pedófilo ou qualquer outra criatura estranha vai me atacar a qualquer instante. Eu preciso andar mais rápido! Socorro!
      Ao se sentir insegura, ela começou a correr. Sem olhar para trás nem para os lados, escapou daquele  bosque de uma árvore só. Mas em sua saída às pressas ,  não percebeu que o relógio caiu de seu punho.
     Nesse momento,  olhos detrás da árvore viram  que alguma coisa caíra da mão da linda garotinha.  E então  você já pode perguntar: 
     -Quem é essa criatura esquisita que fica escondida atrás da árvore que há nesse bosque?
      Primeiro vamos falar sobre a única árvore existente no bosque. Esse fato ocorreu em um bairro chamado Campo Comprido. Depois de deixar que quase todas as árvores do bairro fossem derrubadas para a construção de prédios, a "cidade ecológica" decretou uma multa de três salários mínimos para quem derrubasse a última árvore.
     As horas se passaram. A linda garotinha encontrava-se dentro da sala de aula, olhando a prova de matemática em cima da carteira, concentrada no cara com o qual havia ficado na hora do recreio, quando seu telefone celular tocou. O som tirou a concentração das outras crianças. Todos levantaram seus olhos da prova para a menina que entregou a folha, sem escrever nada nela, à professora e saiu correndo da sala. Levando o celular à orelha correu para trás da escola.  
     Um menino de topete, gazeteando atrás do colégio, observou quando a linda garotinha chegou perto dele, encostou-se na parede, e começou a escutar a conversa:
     -Alô! Disse a linda garotinha.
     -Alou! –respondeu uma voz feia.   
     -Quem gostaria de falar comigo? –perguntou a linda garotinha sem muita curiosidade.
     - Sou a criatura do bosque.
     - Quem te passou o meu número, criatura do bosque?
     - Sem muitas perguntas. Isto é um conto e não um romance.
     - Então diga logo o que você quer, criatura !
     - Bom, é o seguinte: Estou com o seu relógio!
     -Meu relógio! Foi então que ela notou que o relógio, cuja pulseira não andava prendendo direito, havia desaparecido de seu pulso.O objeto era um presente que ganhara da mãe no aniversário passado. Já estava na hora de usar uma coisa mais na moda.      
     -Estou com seu relógio. –repetiu a criatura. Mas não precisa se preocupar, linda garotinha. Vou devolver isso a você. Deixa eu ver. Agora são dezesseis e... Esteja aqui no bosque até as dezesete!
     -Você está usando o meu relógio sem a minha permissão!
     -Sem frescuras, linda garotinha! . Eu espero sentado no banco perto da árvore. Estou usando uma camisa branca por dentro de uma calça azul marinho...
     -Não estou mais interessada nesse relógio. Guarde para você. Desligou o celular na cara da criatura.
    -Massa, cara! Disse o gazeta chegando mais perto da linda garotinha, elogiando a maneira como ela tratou a criatura do bosque.
      O horário de aulas passou. A linda garotinha se despediu de Topeti e saiu das dependências do colégio. Enquanto ia para casa lembrava dos momentos que passara com o moleque atrás do colégio:  
       Todos os meninos com os quais ela ficava usavam topete. Mas o topete de Topeti era diferente. O topete de Topeti era "o Topete". O gel que ele usa deve ser...
       De repente, a linda garotinha foi assaltada por outros pensamentos:
       Sou uma linda menininha voltando para casa que vai cortar caminho pelo bosque. Cara! O que há de errado nisso? Nada. Se eu não tivesse deixado alguém com muita raiva de mim. É óbvio que a criatura do bosque ainda está me esperando atrás da árvore.
      Papai sempre diz à mamãe que devemos juntar a comunidade e passar a motosserra nessa árvore. É muito perigosa. Mas mamãe sempre responde “Não diga isso! Alguém ouve você falando, outro corta a árvore e pensam que foi você... São três salários mínimos de multa!”
      Não arriscou a passar pelo caminho de sempre. Deu a volta por outra rua. Os meninos da outra rua estavam lá. Sete ou oito mais ou menos. Deixaram a linda garotinha passar sem apavorar muito. Apenas tomaram a sua boina, ficaram com a touca que usava por baixo da boina, encheram a menininha de bicudões (“para ela largar mão de ficar se achando”) e advertiram: 
        -Se você passar pela nossa rua de novo, guria... Nós não vamos deixar baixo!
     Ao virar a esquina , entrando na rua de sua casa, a linda garotinha observou alguém parado perto do seu portão:
     Que magrinho esquisito. Não usa nenhum piercing, não tem gel no cabelo e nem veste roupas de marcas. Só pode ser a criatura do bosque!
      Pensou em voltar  correndo pedir ajuda para os meninos da outra rua. Mas pensou que talvez não fosse necessário. Ao vê-la a criatura apenas jogou o relógio em sua direção e afastou-se, abrindo caminho. 
     Ela não conseguiu agarrar no ar. Juntou o relógio no chão e passou correndo para dentro do lote. 
      Com o portão fechado e ocadeado batido, a linda garotinha, curiosamente resolveu gritar com a criatura que já ia longe, voltando para trás da árvore. 
      Já sem perigo, dentro do lote de casa, com o portão fechado e o cadeado batido, ela resolveu gritar:  
      -Ei, maluco! –Ele virou-se e parou para ouvir o que ela  queria:
      -O que quer que eu acredite com isso? Que o bosque perto dá escola não é perigoso? 
      - Quero que acredite apenas que o bosque não é lugar de você deixar aquilo que não quer mais!

       Texto: Osmar Batista Leal  




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