OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING
Parte 1
Curitiba, final de 2006
De repente tudo escureceu. Todos ali dentro viram apenas a palavra Fim, surgindo no meio da tela. Simultaneamente, a música “Bela Lugusi is dead” da banda Bauhaus , começou a ser cantada. A versão foi executada pelas cantoras do Nouvelle vague.
O som e as luzes foram estranhados pelos espectadores:
-Isso é final de filme?” -Alguém gritou. E após o grito, assobios e vaias tumultuaram o ambiente. As pessoas reagiram como se o filme não tivesse terminado, mas interrompido. Nunca viram um final como esse.
-Que coisa mais acadêmica! - Outra pessoa manifestou-se. Mas, das paredes, as arandelas continuaram com sua iluminação gradativa. Logo, a música acabou e não restou nem mais os letreiros. Havia apenas a tela branca e a luz mal educada nas caras enraivescidas.
Uns levantaram-se, resmungando qualquer coisa, caminharam entre as fileiras de poltronas e foram embora. Conseguiram passar pela porta, antes que a saída ficasse congestionada. Outros deixaram o lugar aonde estavam acomodados, mas pararam no meio do caminho, xingando a tela branca na parede. As vozes gritavam, relembrando cenas do filme:
-Perdemos tanto tempo acompanhando a preparação dos heróis só para ver sua rápida e ridícula derrota...
-O filme deveria ter pelo menos mostrado de onde surgiram aquelas criaturas esquisitas que derrubaram o avião...
-Como essa história pode ter acabado sem ao menos revelar o que realmente estava acontecendo?
-As criaturas simplesmente apareceram, atacaram e esconderam-se novamente. Podem voltar a atacar a qualquer momento! O filme terminou deixando elas livres para assassinar quem quiserem...
Cristóvão, com seu rosto escondido dentro do capuz da jaqueta, vestindo uma bermuda com vários bolsos, foi o último espectador a levantar da poltrona. Assim como os outros, não gostou do filme, só que não estava interessado em discutir sobre isso. Queria apenas passar por aquelas pessoas que gritavam no meio das fileiras e chegar até a porta. Mas alguém esbarrou em seu braço, antes que saísse do lugar.
O rapaz virou-se e uma moça, ainda sentada, sorria, olhando para ele. Quem é essa guria ? – pensou. Não era essa guria que estava sentada ali antes. A cor dos lábios dela era vermelha como a poltrona aonde sentava.
A moça usava um leve vestido claro. Seu sobretudo era basicamente preto, mas os óculos tinham as cores do arco- íris. No cabelo curto, pintado de branco, destacava-se uma mecha negra. Contudo, o que mais chamou a atenção do rapaz foi o comportamento sossegado que a moça apresentava.
Ela estava parada em meio ao alvoroço como se ainda esperasse a continuação do filme. Uma expectadora que não olhava para a tela. Seu olhar estava fixo em Cristóvão. Por alguns instantes, ele sentiu-se como se fosse consigo a continuação que ela aguardava.
-E aí ... qual é o teu nome? Perguntou Cristóvão.
-Fique calmo- disse ela .
-Sente mais um pouco. –continuou ela.
Ele obedeceu. Enquanto a fila de saída ia ajeitando-se, sentou-se. Isolou-se por um momento do barulho da sala. Ela perguntou:
- Qual que é teu nome, piá?
- É Cristóvão .
-Não tem, tipo, nenhum apelido, piá?
-Por quê? – Perguntou, desconfiadamente, Cristóvão. Talvez ela soubesse alguma coisa sobre ele.
-Por nada, piá. Todo mundo tem um apelido.
-Você não vai me dizer o teu nome também, guria?
A moça respondeu tranquilamente :
-Guria Maconha.
- Teu nome é muito massa! -Disse, admirado, o rapaz.
- Você curte ir no Largo da Ordem? -perguntou, Cristóvão.
- Com certeza! –respondeu, ela.
-O que achou, tipo, do filme? –Ela perguntou, acrescentando um elemento a mais na conversa e ao mesmo tempo trazendo de volta o pensamento de Cristóvão para dentro da sala de cinema.
-Muito palha. Faltou ação nos heróis! Faltou terror nas criaturas! Eu esperava que elas derrubassem mais aviões e matassem mais pessoas. Achei que o bagulho seria mais pira!
- Pode crer, piá, você manja de cinema mesmo!
Do mesmo modo que o saco de pipocas que a maioria dos espectadores trouxe , ao entrar na sala , logo ficou vazio; consumiu-se também o alvoroço ali dentro. Os espectadores falaram muito mal do filme, mas não foi o seu conteúdo o motivo de sua revolta. Acomodados no declive das poltronas, mantiveram-se atentos à seqüência de cenas durante mais de uma hora e meia. A histeria coletiva veio à tona quando a luz os iluminou. Não aceitaram ser surpreendidos pela claridade. Mas logo, toda a raiva foi descarregada. Acalmaram-se e foram embora.
Ao voltar sua atenção para o ambiente, Cristóvão percebeu que não havia mais barulho. Ele e Guria Maconha eram os últimos na sala. Porém, Uma súbita sensação de que o Shopping já está fechado preocupou instantaneamente o rapaz.
A moça permaneceu calma. Apenas a mecha de cabelo e o vermelho de seu batom movimentaram-se enquanto ela perguntou:
- E aí, tipo, vamos beber um vinho, piá, lá no largo!
A sensação ruim de estar fechado dentro do shopping diminuiu com a possibilidade de sair dali com a guria- maconha. Cristóvão Ficou ansioso em conhecê-la melhor em um espaço mais livre.
-Assim: Meu carro tá, tipo, lá no subsolo, piá. Vamos descer! –Convidou , a moça. E então resolveu levantar da poltrona vermelha.
Ele observou o rosto maquiado de branco. Uma lua cheia pairando lá fora sobre todos os prédios de Curitiba passou pela imaginação de Cristóvão... Mas sentiu que ainda precisava fazer algo antes de deixar o local.
-Faz o seguinte, guria . Vá indo na frente. Vou procurar o sanitário e já te alcanço. Tenho que dar um mijão!
-Sério! Disse Guria Maconha e caminhou entre as fileiras de poltronas.
CONTINUA...
Texto : Osmar Batista Leal
( Leia também “Pálidas’ drinks” a partir de 2/11/2011 em localdoocio.blogspot.com )
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