terça-feira, 6 de dezembro de 2011

NATURALIZAÇÃO DO CAPITALISMO

      -Todos em pé! Vamos aplaudir com entusiasmo o senhor Obedienteolino Concordâncio Contudios da Silva! O nosso operário padrão pelo décimo quinto ano consecutivo!Viva o Obedienteolino!
      -UHUU! Esse é o cara!
      -UHUU! É o orgulho da nossa empresa!
      -É isso aí Obedienteolino, é nóis na fita mano!


      Obedienteolino Concordâncio Contudios da Silva, 44 anos de idade.26 anos de empresa, a mesma empresa!Iniciou sua carreira como cobrador de ônibus intermunicipal entre as cidades vizinhas de Kurilândia e Capitópolis.Por sua competência,obediência e subserviência, com apenas 5 anos de firma foi promovido para cobrador de ônibus nível II, ficando apenas na metrópole de Kurilância, na linha turismo dessa cidade.Aos 33 anos Obedienteolino assumiu o posto de cobrador nível III, o cargo máximo que um homem poderia desejar na empresa de transporte de passageiros, a Latãobus, a única da região.
      10 horas diárias de trabalho na estação tubo.Sol e chuva, calor e frio! Tudo era "festa" para Obedienteolino, o operário padrão, o cobrador das estações tubo das linhas do "triarticulado", o maior latãobus do mundo.
      No curriculo de Obedienteolino não constava nenhuma falta, nenhum atraso. Concordava plenamente com o lema da diretoria da empresa: "Quem fica doente  e falta ao tabalho é porque não gosta do que faz".
      Nenhuma criança com mais de 5anos escapava aos olhos desse cobrador atento.Ninguém passava por baixo da catraca!Esse profissional vestia, literalmente a camisa da empresa!
      Muitas vezes a fila nos tubos,dobrava o quarteirão, pois os pais das "crianças suspeitas" deveriam apresentar a certidão de nacimento das mesmas e os documentos que comprovassem de fato serem menores de cinco anos para não pagarem passagem.
      Certa vez, uma professora tentou passar no tubo de Obedienteolino dando-lhe uma nota de 50reais para troco. Ele não teve dúvida. De posse das normas da empresa e dos avisos fixados nas paredes do seu tubo, estufou o peito e solenemente proclamou:
      - Senhora! Não sabes Ler? És cega, ou tens baixa visão? (com o dedo em riste direcionando-o aos avisos)prosseguiu com seu discurso pragmático).
      - 20 reais!Nem mais um centavo! 20 reais! Essa é a nota de maior valor permitida para troca pela Latãobus!
      A educadora estava paralisada!Todos olhavam para ela e gritavam:
      - Sai da fila, tá tumultuando! Não tem dinheiro vai a pé!Sai da fila! Sai da frente que atrás vem gente!
      Esperançosamente, a professora pediu gentilmente ao operário padrão que trocasse sua nota, ou então, ela o pagaria amanhã, pois durante todo o ano letivo, ela passava por este tubo, mas somente hoje ela não tinha em mãos, o dinheiro trocado para pagar sua passagem!
      - Não insista! A norma é clara! 20 reais é o troco máximo!E para concluir minha fala, lhe sugiro que vá a pé ao trablho hoje, o que é bom para sua saúde, ou pegue um táxi se está com pressa! e tenha uma ótima tarde!Porque no tubo da minha empresa ninguém fere, ninguém transgride as regras!
      Obedienteolino Concordâncio Contudios da Silva, operário padrão! Um claro exemplo da naturalização do capitalismo, porque o que interessa são as normas, as regras que garantem a compra, a venda, a troca, o consumo, e não as relações humanas.

texto: Josmazar.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING PARTE 4


     O jato de urina continuava batendo na parede côncava do vaso. Com a mesma intensidade, as imagens surgiam na tela mental da memória de Cristóvão. Além dos óculos noturnos, outros detalhes desfilavam como indumentária básica para a estreia de “Os vampiros estão dentro do shopping”:
    Um senhor de sobretudo escarlate e  uma senhora com um par de brincos em forma de dentes de alho nas orelhas, uma moça que viera ao cinema sozinha debaixo de uma elegante capa marrom importada da Transilvânia, um rapaz de terno preto ao lado de sua namorada dentro de um longo vestido branco, um menino com uma máscara de lobisomem, duas crianças vestidas iguais com dentaduras de vampiro de plástico, um jovem com um grande crucifixo de madeira no peito acompanhado  de  sua namorada com uma tatuagem de morcego nas costas, alguns jovens com barbichas demoniacamente de bode, um homem cheio de marcas de mordidas de mulher no pescoço acompanhado da esposa com um prendedor de cabelo em formato de estaca, um grupo de pessoas usando camisetas da sociedade oculta dos vampirólogos do Paraná, um garoto vestindo uma camiseta com a seguinte inscrição na frente “Estive no show dos Rolling Stones” e atrás, a foto do Keith Richards mordendo o Mick Jagger...
      As luzes ainda não estavam apagadas quando as pessoas notaram a observação indiscreta. O senhor de sobretudo escarlate encarou o rapaz. Intimidou-o a virar-se para a frente.Cristóvão não teve coragem de mexer mais o pescoço, mas  ainda havia coisas para se escutar. Mesmo depois do filme já ter começado as conversas paralelas continuavam: 
       -Como está cheio este cinema, amiga!
       Era a fala de uma das duas senhoras que cochichavam próximas ao assento de Cristóvão.  
       -Por falar em “cheio”, amiga, o que é essa saliência na sua bolsinha?
       -É um volume de Bram Stoker, amiga. Quero conferir se “Os vampiros estão dentro do shopping” é mais uma adaptação de Drácula.
       -Nada como o nosso Trevisansinho! Concorda, amiga?
       Alguém soprara um sinal, avisando as duas senhoras que as primeiras cenas já estavam projetando-se. Uma delas ainda  resmungara antes de cessar a conversa:
       -Anti-éticos! Será que pensam que somos cegas?
       E quando a urina estava quase esgotando-se da bexiga de Cristóvão, sua memória retrocedeu há alguns dias atrás. Saiu da sala de cinema e foi buscar uma outra sala, em algum lugar da cidade. O rapaz lembrou-se, de repente, do consultório do doutor César.  
        -Quando eu era jovem eu também gostava de ler histórias em quadrinhos. Tenho uma coleção da Marvel Comics guardada em casa, só que o meu filho não gosta de ler nem os quadrinhos... Esse Gorila Musculoso estampado na sua camiseta eu não conheço. É  algum novo vilão?
        Foi exatamente com essas palavras que, na manhã de algumas semanas atrás,  o médico apresentava-se ao jovem que procurava-o. Atrás de seu bigode grosso escondia-se um sorriso falso.
       A micção havia acabado. Finalmente, Cristóvão estava pronto para sair da cabine e , ainda, alcançar  Guria Maconha. Não ouvira mais a sua voz depois que ela veio até a porta do banheiro apressá-lo. Talvez ela o aguardasse no piso. Mas enquanto fechava o zíper da bermuda olhou para a estampa no próprio peito. Estava usando a mesma camiseta do dia da consulta. Lembrou também da resposta que dera ao médico:
        -Não é vilão, doutor. O Gorila Nervoso é o meu super-herói favorito!
        E, da mesma forma que naquela manhã,  endireitou-se fazendo com que o tecido esticasse um pouco e aparecesse escrito  “Gorila Nervoso”.
        -O meu problema, doutor é que já completei dezoito anos, e ainda tenho um corpo de dezesete!
        Dizer isso fora o que bastara para que o médico tirasse a caneta presa em sua camisa branca , escrevesse num papel uma palavra ininteligível, e entregasse-lhe a receita.
        Cristóvão abaixou mais uma vez a cabeça e  tentou imitar a cara sisuda da fera em seu peito. Poderia disfarçar a sua fisionomia preocupada, deixando-a um pouco mais animal, antes de alcançar Guria Maconha. E ao olhar para o gorila, sentiu que os olhos da fera cobravam-lhe  alguma coisa:
         -Cara! Você ainda não comeu por quê? Gastou  todo o dinheiro que sua mãe deu para comprar um tênis novo na consulta e na drogaria e agora vai deixar o remédio derreter no bolso?
       O rapaz  imitava o Gorila Nervoso enquanto cobrava de  si  mesmo ,uma atitude.    
         -A Guria maconha não vai gostar dessa sua cara de medo!
         Cristóvão saiu da cabine, lavou a mão, e antes de passar pela porta do banheiro, parou. Colocou  a mão dentro de um dos bolsos e tirou uma bala. Na embalagem estava  escrito Decadurabolin Caramelizado.
    
   
        Texto: Osmar Batista Leal

    ( Continua... )


  Outros textos:

    “Pálidas’ Drinks”
    (localdoocio.blogspot.com)
    “Os objetivos da centopeia”
    (Algumasfabulas.blogspot.com) 


    

sábado, 19 de novembro de 2011

ONDE ESTÃO OS THUNDERCATS?

-HAHAHAHAHA!!!!!
        As gargalhadas ecoaram pelo cemitério! Na madrugada fria e chuvosa, nenhum mortal ousou sair de casa. Ninguém viu nem ouviu a celebração fúnebre que aconteceu naquela segunda-feira! Ao menos ninguém que estivesse vivo!
       Treze mil habitantes. Esse era o número exato de pessoas vivas no vilarejo de Kurilândia, cidade famosa por ter a mais disciplinada escola do país, a "escolinha liberdadi".
        Dez mil mortos! Esse era o número exato de cadáveres que repousavam no cemitério de Kurilândia! Porém, esse repouso estava por acabar. Nessa tempestuosa noite a estatística mudaria... tragicamente mudaria!



Sim! A forma decadente foi despertada! As gargalhadas no cemitério confirmaram o sucesso do ritual.O mal sempre vivo porta roupas novas: Mumm Ra, o de vida eterna é MIDYÁ-LIGNÁ, o sugador de almas!
        - ESPÍRITOS DA INDÚSTRIA CULTURAL, TRANSFORMEM ESTA FORMA DECADENTE EM MIDYÁ-LIGNÁ, O DESPERTADOR DE CONSUMOS ETERNOS!
        SÁBADO! 17:00
        23 MIL ZUMBIS! ESSE ERA O NÚMERO EXATO DE "PESSOAS" QUE COMPRAVAM NAS 666 LOJAS DO SCHOPPING DE KURILÂNDIA!


TEXTO: JOSMAZAR

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING PARTE 3



     
      Cristóvão ouvia a própria respiração, mas não ouviu mais os passos no corredor. O que fez com que a pessoa que veio até a porta parasse? Será que ela parou por ser ali o banheiro dos homens? Isso queria dizer que quem estava  na porta seria uma mulher. Mas que mulher ainda estaria no shopping? A resposta à Cristóvão  veio exatamente de lá de onde os passos cessaram.  
      -Faz mais de dez minutos que eu estou te esperando, piá? O que está fazendo aí dentro?
      Era a voz de Guria Maconha que Cristóvão ouvia novamente. Ela o surpreendeu outra vez. Ele já não acreditava que a moça ainda estivesse o esperando. Achava que fazia muito mais de dez minutos que permanecia parado na cabine.
       -Só mais um instantinho!  –gritou decididamente,  o rapaz. Chega de dúvidas! –pensou. Ainda estava em tempo de alcançar Guria maconha e saírem do shopping juntos. Beber vinho no Largo da Ordem... No carro dela?  
       Lá de fora do banheiro não veio nenhuma resposta ao seu grito decisivo. E a maior das surpresas da noite, pelo menos até aquele instante, veio do fundo da bacia sanitária. Algo terrivelmente espantoso aconteceu.
       A reação de Cristóvão ao que ocorreu, naquele momento, após pensar que havia decidido alguma coisa, foi apenas continuar contraindo, ainda mais, os  seus músculos. A tensão piorou.
       Sem nenhum som de descarga, a límpida água começou a se movimentar. Uma imagem formou-se no fundo do vaso sanitário. O rapaz fixou o seu olhar para o rosto que aparecia. Olhava sem acreditar no que estava vendo.
       Se fosse a cara de um estranho que aparecesse ali, ele simplesmente deixaria que um jato de urina jorrasse sobre toda aquela loucura... Mas o rosto que ele começou a enxergar  precisava ser respeitado. Ele fechou o zíper da bermuda imediatamente.
       - O que a senhora está fazendo aí, mamãe? –perguntou, Cristóvão, por impulso, ao rosto.  Não imaginava que a aparição pudesse responder. Porém, o que ouviu em seguida, imobilizou  completamente o rapaz.  A imagem  se correspondeu com ele. Ela falou:
      -Fuja de Guria Maconha, meu filho. Ela não é uma boa menina  para você, filho. Por favor, não entre no carro dela, Cristóvão! 
      -De onde a senhora a conhece, mãe? –gritou estarrecidamente, Cristóvão. Mas assim que fez a pergunta,  percebeu que não era isso que precisava compreender primeiro. Lançou outra pergunta:
      -Como a senhora veio parar aí, mãe!
      A imagem não respondeu. Ela queria apenas continuar alertando:
      - Venha para casa, meu filho. Eu estou te esperando! Acredite em mim, filho. Guria Maconha não vai levar você só até o Largo da Ordem. É claro que não! Não entre no carro dela. Ela vai te levar a um lugar aonde você não vai conseguir sair nunca mais. Eu tenho certeza do que estou falando. Por favor, meu filho. Venha para casa. Não entre no carro de Guria Maconha. Você não vai escapar dela nunca mais... Ela tem amigos que você ainda não conhece. São criaturas bem mais perigosas que ela...
      -Primeiro, me diga, mãe. Como a senhora pode aparecer aí!
      -Não há tempo de explicações meu filho. Saia correndo desse shopping enquanto Guria Maconha ainda não apresentou você às criaturas....
      -Que criaturas, mãe! –Berrou, o rapaz enlouquecidamente à aparição do rosto da mãe.
      -Saia correndo daí, filho. Você ainda pode alcançar o último ônibus... Venha para casa, Cristóvão!
      -Chega! Isso não pode ser possível! –disse,Cristóvão. E em seguida, fechou os olhos. Tentou raciocinar um pouco. A imagem na água aparecera logo após Guria Maconha vir chamá-lo. Portanto, talvez, seria o seu próprio medo de sair com a moça  que se manifestava daquela estranha forma. A imagem da mãe no fundo do vaso sanitário só poderia ser uma alucinação.
      Mas ainda estava, realmente, ouvindo a voz dizendo para ele vir para casa. Escutava mesmo com os olhos fechados.
       -Só vou abrir os olhos quando a senhora ficar em silêncio, mãe!  -disse, Cristóvão, dessa vez, sem gritar; tentando manter a calma.
       Resolveu parar a audição também. E assim,  quando tirou os dedos dos ouvidos, tudo estava em silêncio. O rosto da mãe havia sumido.  
       A água permanecia límpida e parada. Cristóvão não viu mais nenhuma movimentação. Mas em seu peito,  as batidas cardíacas continuavam aceleradas. Só tinha uma maneira de provar a si mesmo que não acreditava ser real tudo aquilo que viu. Deveria mijar sobre o vaso assombrado e acionar a descarga como se nada tivesse aparecido ali.
       Não deixou que outro pensamento tirasse a sua razão. Respirou lentamente  e deixou que a urina saísse.
      O jato de urina acumulada impulsionou-se triunfalmente. Escapou como uma manada de porcos jogando-se do precipício. Ao mesmo tempo, um fluxo de imagens começou a se exorcisar através da memória.
      Quando escolheu ver o filme do meio da primeira fileira, havia pouca gente; pois entrou na sala bem adiantado. Porém, logo, o lugar começou a encher. E quando a sala já estava lotada ele pensou : Será que havia algum elemento perigoso à retina humana na tela? Todos estavam usando óculos escuros.    
       Virando o pescoço e movendo a cabeça a procura de alguém, que como ele, não protegia os olhos, observara o quadro. Os modelos variavam em suas combinações:
       Óculos com cabelo amarrado, óculos com black power, óculos com correntes grossas no peito, óculos com grandes argolas nas orelhas, óculos com umbigo aparecendo, óculos com dianteira de ônibus para senhoras, óculos com testa saliente, óculos com cabeça raspada, óculos azul de armação branca com topete louro, óculos com boné virado para trás, óculos com cabelo de brilho molhado, óculos com boné de aba para cima, óculos com piercings, óculos mastigando chicletes, óculos com aparelhos ortodônticos, óculos com lenço de pirata...

      ( continua)
       Texto: Osmar Batista Leal
   
   
Leia também:
   Pálidas’ Drinks ( em localdoocio.blogspot.com)   
   A centopeia sem sapatos (em algumasfabulas.blogspot.com)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os vampiros estão dentro do shopping parte 2

   

      Junto ao objeto mais elegante do interior daquele shopping, Cristóvão permanecia parado. Seus olhos estavam abaixados para a louça de superfície primorosa e boca oval. Iam até a  água estancada e fixavam-se no fundo do vaso sanitário. Mas em seu cérebro havia intenso movimento. Dentro da  pequena cabine, o rapaz pensava. 
       A bexiga estava totalmente cheia. Pronta para descer pela uretra e saltar para o exterior, a urina aguardava a liberação dos esfíncteres. No entanto, estes músculos contraiam-se obedientemente. Não relaxariam enquanto não obtivessem um sinal vindo da cabeça que comandava o organismo inteiro.
        Mas Cristóvão nem sequer abrira o zíper da bermuda. Ele apenas pensava. A moça que apareceu dizendo se chamar “Guria Maconha” dominava todo o universo de  seu pensamento.
        Seu sangue circulava alteradamente pelas veias. Os vasos que distribuíam o líquido para a região frontal sofreram uma estranha e violenta pressão. De pupilas dilatadas e olhos vermelhos, o rapaz  esforçava-se. Tentava tomar o controle do próprio cérebro . Não conseguia ter a imagem que queria, concretamente formada. Tudo o que imaginava era uma variedade de cores que misturavam-se em sua memória. Uma pintura abstrata que significava “os olhos arco- íris de Guria Maconha”
      De onde veio a moça? Apareceu na poltrona ao seu lado, do nada. Não a percebeu aproximando-se! Normal. Estava concentrado no filme. Qual foi mesmo a  última cena, antes da escuridão?
      Um pequeno vulto movimentando-se dentro de uma tubulação escura. Rastejava com muita dificuldade, quase afogando-se por entre um líquido estagnado e sujo. Quando a cena ficou um pouco mais clara, reconheceu-se a forma da coisinha que se arrastava. Não era um verme! O corpo que se formou foi o de um homenzinho. Vestia uma roupa  muito engraçada. Em volta de seu pescoço havia algo que lembrava um leque. Parecia ter sido tirado de uma pintura antiga. Fugia em desespero mortal até que finalmente teve que parar. Levantou sua cabeça de forma que a barba pontuda de seu esquisito queixinho ficasse a mostra. A figurinha aflita  arregalou os  pontinhos que seriam seus olhos, e encarando os expectadores, gritou desesperadamente. E então a tela escureceu deixando bem claro que a criaturinha humana não conseguiria escapar. Alguma coisa bem maior a devorou...
      Cristóvão conseguiu lembrar alguns detalhes do filme, mas tinha dificuldades em relembrar o rosto da moça que apareceu quando as luzes se acenderam. Precisava vê-la de novo... Ou seria melhor deixar quieto?
      Mas por que  tinha que ficar analisando tanto as coisas ? Por que não mijava  logo de uma vez e saía dali. Procurava por dentes de vampiro em uma mulher só pelo fato dela aparecer no final de um filme de terror? É que,  na verdade,  o filme não terminou direito... Se não tivesse terminado as outras pessoas ainda estavam lá nas poltronas. Estavam? É claro que não.
      Doze foi o número de mulheres para as quais, Cristóvão pensou convidar para assistir “os vampiros estão dentro do shopping” , mas quando chegou o dia de vir ao cinema, resolveu nem tentar... Guria Maconha veio sentar ao seu lado sem ser convidada!
       Mesmo usando um capuz que cobria grande parte da cara, não considerava-se feio. Havia muitos caras mais feios  andando tranquilamente  por aí. Era injustamente por ele que as fêmeas não sentiam-se nem um pouco atraídas... Mas dessa vez, Guria Maconha gostou dele ! Ou ela tinha alguma intenção oculta?
      -Você não usa as palavras certas! Não sabe elogiá-las! -Disse Cristóvão, a si mesmo.
      -As mulheres querem ouvir palavras bonitas. Continuou a responder à própria mente indecisa. Após livrar-se das perguntas mentais passou a uma fase de afirmações.
      -As mulheres querem que você diga que elas são lindas! Porém, pareciam não ser frases próprias. Era como se outra pessoa falasse dentro de seu pensamento. Seria Guria Maconha que elaborava essas frases? Voltaram as perguntas. Será que ela ainda estava esperando- o lá fora? Mas afinal, quais palavras ele usou para que , até então , ela ainda o aguardasse?  Nenhuma. Disse apenas que  fosse indo na frente. Precisava dar um mijão. 
      Há quanto tempo já permanecia parado ali? Por que ainda não mijou? Os respingos de urina, no chão e perto da pia, que observara desde que entrou no banheiro mostravam que muitas pessoas passaram por ali. Mas no momento tudo estava extremamente silencioso.  Talvez não houvesse mais ninguém, além de Cristóvão dentro do Shopping. Guria Maconha também já devia ter entrado no carro que dissera ter deixado no estacionamento e ido embora.   
      O rapaz sentiu que a garganta estava seca. Precisava molhá-la com um gole de vinho. Conseguia imaginar-se andando rapidamente pelo meio das pessoas lá no Largo da Ordem, com uma garrafa de vinho na mão, procurando por Guria Maconha... Mas antes precisava livrar-se de todo o refrigerante que bebera. A água no fundo do vaso mantinha-se em seu nível constante impedindo que o cheiro de esgoto invadisse o ambiente. Sua brancura aguardava a urina cair.     
      De repente, a vontade de beber não era tudo. Cristóvão desejou, também, mastigar alguma coisa doce.  Lembrou de algo. Colocou a mão dentro de um dos bolsos da bermuda, conferindo  se não faltava  nada do que trouxe.
      Ao tirar a mão do bolso percebeu que, na pressa de sair de casa, esqueceu do relógio. Perdeu completamente a noção do tempo. Será que já fazia mais de uma hora que permanecia escondido dentro da cabine? Escondido ! Mas o que ele temia?
      -Que coisa mais palha! Precisava sair imediatamente. Não , sem  aliviar a bexiga. Decidido, puxou o zíper da bermuda para baixo.   
      Nesse momento, o silêncio da cabine foi interrompido  por passos que vinham pelo piso. Os passos cessaram na porta do banheiro. Cristóvão sentiu as rápidas batidas no coração.

       Texto: Osmar Batista Leal
    ( Continua... )

Leia também:
    “Pálidas’ drinks”
    (em localdoocio.blogspot.com)









      

sábado, 5 de novembro de 2011

"OUTRO TIJOLO NO MURO"

“Os comunistas se recusam a dissimular suas opiniões e seus projetos. Proclamam abertamente que seus objetivos não podem ser alcançados senão pela derrubada de toda a ordem social passada.Que as classes dominantes tremam diante de uma revolução comunista!Os proletários nada têm a perder a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar.
Proletários de todos os países, uni-vos!”

Trecho extraído da Obra: Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels.

      Primeiro dia na escola. Último mês da faculdade de ciência sociais.
      Com a voz rouca e com alto tom, Alienilson Cordeiro inicia sua fala, citando o Manifesto do Partido Comunista, para sua turma do último ano do ensino médio, da “Escolinha Liberdadi[1].
      Cabelos quase compridos, “barba quase barba”, camiseta e boina  Che Guevara.
      O charuto “quase  cubano” só poderia fumar fora da sala de aula, mas mantinha-os à mostra em uma caixa transparente, sobre sua mesa de professor, junto com seus livros de Karl Marx.
      A maioria dos alunos da Escolinha liberdadi, ainda não sabiam o que significava o termo “proletários”. Nunca tiveram contato com trabalhadores reais. Eram da classe burguesa, filhos dos donos dos meios de produção. O contato com “trabalhadores” se dava apenas nos jogos de vídeo game, no qual utilizavam os escravos, os servos, os proletários, para produzirem tudo que os livres, nobres, senhores feudais e burgueses mandassem.
      Alienilsom Cordeiro franziu a testa, preocupou-se:
     -Que apatia é essa? Por quê ninguém aplaudiu minha citação? Vocês nunca leram Marx? O meu visual não diz nada a vocês?
      A apatia continuava.
     Alienilsom Cordeiro resolveu tentar outra citação, mas agora, a de um jornalista francês anarquista chamado Anselme Bellegarrige:
      - “A liberdade é uma dívida que o homem tem para consigo mesmo, para com o mundo e para com as crianças que nascerão”.
      Que interpretação! Que ênfase! Que vida tiveram as palavras na voz do empolgado  Alienilsom!
       Mas nenhuma reação do público. A apatia continuava.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING parte 1


 OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING
    Parte 1   

               Curitiba,  final de 2006
       De repente tudo escureceu.  Todos ali dentro viram  apenas a palavra Fim, surgindo no meio da tela.  Simultaneamente, a música “Bela Lugusi is dead” da banda Bauhaus , começou a ser cantada. A versão foi  executada pelas cantoras do Nouvelle vague.
       O som e as luzes foram estranhados pelos espectadores:
        -Isso é final de filme?” -Alguém gritou. E após o grito, assobios e vaias tumultuaram o ambiente. As pessoas reagiram como se o filme não tivesse terminado, mas interrompido. Nunca viram um final como esse.
       -Que coisa mais acadêmica!  - Outra pessoa manifestou-se. Mas, das paredes, as arandelas continuaram com sua  iluminação gradativa. Logo, a música acabou e não restou nem mais os letreiros. Havia  apenas a tela branca e a luz mal educada nas caras enraivescidas.   
        Uns levantaram-se, resmungando qualquer coisa, caminharam entre as fileiras de poltronas e foram embora. Conseguiram passar   pela porta, antes que a saída ficasse congestionada. Outros deixaram o lugar aonde estavam acomodados, mas  pararam no meio do caminho, xingando   a tela branca na parede. As vozes gritavam, relembrando cenas do filme:
       -Perdemos tanto tempo acompanhando a  preparação dos heróis só para ver  sua rápida e ridícula derrota...
       -O filme deveria ter pelo menos mostrado de onde surgiram aquelas criaturas esquisitas que derrubaram o avião...
       -Como essa história pode ter acabado sem ao menos revelar o que realmente estava acontecendo?
        -As criaturas simplesmente apareceram, atacaram e esconderam-se novamente. Podem voltar a atacar a qualquer momento! O filme terminou deixando elas livres para assassinar quem quiserem...
       Cristóvão, com seu rosto escondido dentro do capuz da jaqueta, vestindo uma bermuda com vários bolsos, foi o último espectador a levantar da poltrona. Assim como os outros, não gostou do filme, só que não estava  interessado em discutir sobre isso. Queria  apenas passar por aquelas pessoas que gritavam no meio das fileiras e chegar até a porta. Mas alguém esbarrou em seu braço, antes que saísse do lugar.
       O rapaz virou-se e uma moça, ainda sentada,  sorria,  olhando para ele. Quem é essa guria ? – pensou. Não era essa guria que estava sentada ali antes.  A cor dos lábios dela era  vermelha como a poltrona aonde  sentava.
       A moça usava  um leve vestido claro. Seu sobretudo era basicamente preto, mas os óculos tinham as cores do arco- íris. No cabelo curto, pintado de branco, destacava-se uma mecha  negra. Contudo, o que mais chamou a atenção do rapaz foi o comportamento sossegado que a moça apresentava.
        Ela estava parada em meio ao alvoroço como se ainda esperasse a continuação do filme. Uma expectadora que não olhava para a tela. Seu  olhar estava fixo em Cristóvão. Por alguns instantes, ele sentiu-se como se fosse consigo a continuação que ela aguardava.
       -E aí ... qual é o teu nome? Perguntou Cristóvão.
       -Fique calmo- disse ela .
       -Sente mais um pouco. –continuou ela.
       Ele obedeceu. Enquanto a fila de saída ia ajeitando-se, sentou-se. Isolou-se por um momento do barulho da sala. Ela  perguntou:
      - Qual que é teu nome, piá?
      - É Cristóvão .
      -Não tem, tipo, nenhum apelido, piá?
       -Por quê? – Perguntou, desconfiadamente, Cristóvão. Talvez ela soubesse alguma coisa sobre ele.
       -Por nada, piá. Todo mundo tem um apelido.
        -Você não vai me dizer o teu nome também, guria?
        A moça  respondeu  tranquilamente :
        -Guria Maconha.
        - Teu nome é muito massa!  -Disse, admirado, o rapaz.
        - Você curte ir  no Largo da Ordem? -perguntou, Cristóvão.
        - Com certeza! –respondeu, ela.
        -O que achou, tipo, do filme? –Ela perguntou, acrescentando um elemento a mais na conversa e ao mesmo tempo trazendo de volta o pensamento de  Cristóvão para dentro da sala de cinema.
        -Muito palha. Faltou ação nos heróis! Faltou terror nas criaturas! Eu esperava que elas derrubassem mais aviões e matassem mais pessoas. Achei que o bagulho seria mais pira!   
        - Pode crer, piá, você manja de cinema mesmo!  
        Do mesmo modo que o saco de pipocas que a maioria dos espectadores trouxe , ao entrar na sala , logo ficou vazio; consumiu-se também o alvoroço ali dentro. Os espectadores falaram muito mal do filme, mas não foi o seu conteúdo o motivo de sua revolta. Acomodados no declive das poltronas, mantiveram-se atentos à seqüência de cenas durante mais de uma hora e  meia. A histeria coletiva veio à tona quando a luz os iluminou. Não aceitaram ser surpreendidos pela claridade. Mas logo, toda a raiva foi descarregada. Acalmaram-se e foram embora.
       Ao voltar sua atenção para o ambiente, Cristóvão percebeu que não havia mais barulho. Ele e Guria Maconha eram os últimos na sala. Porém, Uma súbita sensação de que o Shopping já está fechado preocupou instantaneamente o rapaz.
        A moça permaneceu calma. Apenas a mecha de cabelo e o vermelho de seu batom movimentaram-se enquanto ela perguntou:
       - E aí, tipo, vamos beber um vinho, piá, lá no largo!
       A sensação ruim de estar fechado dentro do shopping diminuiu com a possibilidade de sair dali com a guria- maconha. Cristóvão Ficou ansioso em  conhecê-la melhor em um espaço mais livre.
        -Assim: Meu carro tá, tipo, lá no subsolo, piá. Vamos descer! –Convidou , a moça. E então resolveu levantar da poltrona vermelha.
        Ele observou o rosto maquiado de branco. Uma lua cheia pairando lá fora sobre todos os prédios de Curitiba passou pela imaginação de Cristóvão... Mas sentiu que ainda precisava fazer algo antes de deixar o local.
        -Faz o seguinte, guria . Vá indo na frente. Vou procurar o sanitário e já te alcanço. Tenho que dar um mijão!
        -Sério! Disse Guria Maconha e caminhou entre as fileiras de poltronas.
                 CONTINUA...
Texto : Osmar Batista Leal
  ( Leia também  “Pálidas’ drinks” a partir de 2/11/2011 em localdoocio.blogspot.com )


sábado, 29 de outubro de 2011

RETÂNGULOS DE CONCRETO


          Calor de quase trinta graus!
        No interior do retângulo de concreto, as poucas janelas existentes não conseguem arejar o ar. A única porta existente está fechada ! Vigiada!
        -É proibido reclamar! Dizem os mais de cem cartazes multicoloridos fixados nas paredes do retângulo de concreto.
        - É proibido se expressar! Anuncia a voz forte e autoritária nas caixas de som de toda a “escola”!?!
            Para manter os 40 alunos ocupados, o quadro negro está cheio, cheio pela segunda vez nessa mesma aula. Cheio pela sétima vez nessa mesma tarde de sexta-feira!
         O vigia está atento à porta. Observa os olhares daquelas crianças trancafiadas, as quais fitam o quadro negro e automaticamente reproduzem o seu conteúdo nos cadernos. A maior parte delas tem entre 8 e 10 anos. Todas em silêncio absoluto, todas uniformizadas, todas obedientes e comportadas.
      Observar e controlar! Vigiar e punir! Domesticar!
     Essas são as funções do vigia! Profissional bem remunerado, bem conceituado, bem treinado!
       Observar e controlar! Vigiar e punir! Domesticar!
       Estes ão os lemas da nova sociedade. São os alicerces de uma nova educação! É claro que estamos falando do futuro! Futuro que traz a sociedade perfeita, a sociedade sob controle!
        Todos os retângulos de concreto da “escolinha liberdadi” funcionam perfeitamente. Não há mais vagas! No próximo ano, mais retângulos serão construídos, mais vigias serão contratados e novas crianças serão mecanizadas.
      Os pais estão felizes, pois seus filhos apenas dizem “sim senhor” e “sim senhora”. Nenhuma criança brinca, nenhuma criança se suja, nenhuma criança tem infância!
       As propagandas da “escolinha Liberdadi” estão o tempo todo na TV:
       -Agora posso assistir o jogo e tomar minha cerveja em paz! Isso é que é vida!
        -Agora posso assistir minha novela sem incomodações! Isso é que é vida!
      - Sim! Nossos filhos estão depositados na “escolinha liberdadi”, o lugar ideal para a acomodação de nossos filhos! Matricule já o seu!Porque o nosso já está lá! HAHAHAHA!
          A propaganda não para:
         - Oi Pessoas! Me chamo Tetê, e meus 666 filhos também estão depositados na “escolinha  liberdadi”, e o que é mais legal...nos três horários! Isso mesmo! Nos três horários! Imaginem vocês... posso acordar tarde, ir ao shopping, assistir o vídeo show, à malhação, e ver todas as novelas!Uau! Foi graças à escola liberdadi que consegui um tempinho para mim! Tenha um tempinho para você também! Matricule seus pimpolhos na “escolinha liberdadi”, a escola que prepara o seu filho para passar na provinha Brasil, no Enem e em todos os vestibulares... ele vai se transformar numa máquina de fazer provas! E se você quiser, nem precisa ver a criança! Isso mesmo! Nem precisa conviver com a criança! Os vigias da "escolinha da liberdade" a trazem e a levam em casa quando você estiver dormindo! Para quê se incomodar com a educação das crianças? Ligue já! Nossa diretora Bel terá muito prazer em receber a sua mensalidade! Venha nos fazer um visita! Mas atenção! Não aceitamos cheques e nem palpites! Só dinheiro mesmo!
    Me desculpem! Preciso parar com o texto imediatamente! Acabei de ver no noticiário que a secretaria da boa educação, de nossa cidade, anunciou que as crianças de 5 anos já podem perder a infância e estão "aptas" para serem matriculadas na "escolinha liberdadi"... o meu filho já tem seis anos!!!

texto: Josmazar.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A EDUCAÇÃO DOS HOMENS



 “Todas as nossas línguas são fruto da arte.  Durante muito tempo se procurou saber se havia uma língua natural e comum a todos os homens. Sem dúvida existe uma: É a que as crianças falam antes de saber falar.”
       ( Jean Jacques Rousseau)


     -Boa noite. Meu nome é Sério. Professor Sério! E hoje eu estou aqui para explanar sobre três tipos de educação observados por Jean Jacques Rousseau. Mas antes de começar a falar, gostaria de dizer que não vou admitir, durante a minha fala, nenhuma interrupção...
    -cloac...!
    -Mas o que é isso? Por acaso tem algum palhaço aqui na frente? Ou vocês me contam quem foi o engraçadinho que  fez  “cloac” ou eu expulso todos vocês da sala...Tudo bem. Desta vez passa, mas da próxima... Vamos iniciar pela “Educação da natureza”. Trata-se do desenvolvimento de nossos próprios órgãos... 
     -O desenvolvimento de meus próprios órgãos me permite pular, correr pela sala, saltar sobre as carteiras,  mexer nas coisas alheias, incomodar aos outros...
     -Mas que absurdo! Volte para o seu lugar palhaço.Vá sentar... Temos também “A educação dos homens”. É o uso que nos ensinam a fazer do desenvolvimento de nossos próprios órgãos...
     -Se eu não posso pular, correr pela sala, saltar sobre as carteiras, mexer nas coisas alheias, incomodar aos outros... Então eu quero sair daqui! Alguém abra essa porta! Eu quero sair!
       - Cale a boca, palhaço! Não grite! Você está pensando que está em sua casa?  E finalmente “A educação da coisas”. É a experiência que adquirimos das coisas e do mundo ao nosso redor que nos afetam... Que de alguma maneira nos afetam...Não vai interromper-me agora Palhaço?
      -Agora não. Agora eu aprendi a sentar e ficar bem quietinho!

        Texto: Osmar Batista Leal
   

sábado, 22 de outubro de 2011

ESTADO DE ANOMIA...

      No discurso de Martin Luther King pela igualdade, o verbo sonhar é referência primeira. É uma menção poética sobre a possibilidade concreta de liberdade e justiça entre os homens.
     Na minha visão sobre a humanidade de hoje, a poesia está definhando, prestes a morrer.
    Percebo a cada dia, nas experiências com o outro, que o processo de desumanização é intenso e irreversível; similar a uma praga que se espalha, a um vírus que resiste ao bom senso, que se alimenta das injustiças e do vale tudo pelo poder. Tal vírus se prolifera a partir da covardia, explicitando o medo da liberdade nunca antes conhecida. Por quê aceitamos o jugo? Por que estamos quase sempre ajoelhados reproduzindo o "amém"? Que doença é essa que infecta nossa individualidade com ideologias alheias e impositivas?
     A resposta está nas faces sem expressões próprias, nas cabeças baixas esperando ordens... é a doença da submissão!

TEXTO: JOSMAZAR

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A CRIATURA DO BOSQUE DO CAMPO COMPRIDO



        "O carinho, como o jogo e a comida, exige certa dosagem" 
        ( Anton Makarenko)
      Mochila com formato de ursinho sobre as costas, piercing no nariz, argolonas nas orelhas, trancinhas, banda na testa,  touca na cabeça, boina por cima da toca... A linda garotinha ia para o colégio.
      Caminhando lentamente para chegar na segunda aula, ela atravessava o bosque de uma árvore só, quando de repente, foi assaltada por um pensamento horrível: 
      Sou uma linda menininha de dez anos que passa pelo bosque para chegar na escola, pensando no menino com o qual ficou ontem à tarde. Cara! O que há de errado nisso?
      Nada. Não fosse esta uma história de horror e loucura. Um jovem maníaco, um velho pedófilo ou qualquer outra criatura estranha vai me atacar a qualquer instante. Eu preciso andar mais rápido! Socorro!
      Ao se sentir insegura, ela começou a correr. Sem olhar para trás nem para os lados, escapou daquele  bosque de uma árvore só. Mas em sua saída às pressas ,  não percebeu que o relógio caiu de seu punho.
     Nesse momento,  olhos detrás da árvore viram  que alguma coisa caíra da mão da linda garotinha.  E então  você já pode perguntar: 
     -Quem é essa criatura esquisita que fica escondida atrás da árvore que há nesse bosque?
      Primeiro vamos falar sobre a única árvore existente no bosque. Esse fato ocorreu em um bairro chamado Campo Comprido. Depois de deixar que quase todas as árvores do bairro fossem derrubadas para a construção de prédios, a "cidade ecológica" decretou uma multa de três salários mínimos para quem derrubasse a última árvore.
     As horas se passaram. A linda garotinha encontrava-se dentro da sala de aula, olhando a prova de matemática em cima da carteira, concentrada no cara com o qual havia ficado na hora do recreio, quando seu telefone celular tocou. O som tirou a concentração das outras crianças. Todos levantaram seus olhos da prova para a menina que entregou a folha, sem escrever nada nela, à professora e saiu correndo da sala. Levando o celular à orelha correu para trás da escola.  
     Um menino de topete, gazeteando atrás do colégio, observou quando a linda garotinha chegou perto dele, encostou-se na parede, e começou a escutar a conversa:
     -Alô! Disse a linda garotinha.
     -Alou! –respondeu uma voz feia.   
     -Quem gostaria de falar comigo? –perguntou a linda garotinha sem muita curiosidade.
     - Sou a criatura do bosque.
     - Quem te passou o meu número, criatura do bosque?
     - Sem muitas perguntas. Isto é um conto e não um romance.
     - Então diga logo o que você quer, criatura !
     - Bom, é o seguinte: Estou com o seu relógio!
     -Meu relógio! Foi então que ela notou que o relógio, cuja pulseira não andava prendendo direito, havia desaparecido de seu pulso.O objeto era um presente que ganhara da mãe no aniversário passado. Já estava na hora de usar uma coisa mais na moda.      
     -Estou com seu relógio. –repetiu a criatura. Mas não precisa se preocupar, linda garotinha. Vou devolver isso a você. Deixa eu ver. Agora são dezesseis e... Esteja aqui no bosque até as dezesete!
     -Você está usando o meu relógio sem a minha permissão!
     -Sem frescuras, linda garotinha! . Eu espero sentado no banco perto da árvore. Estou usando uma camisa branca por dentro de uma calça azul marinho...
     -Não estou mais interessada nesse relógio. Guarde para você. Desligou o celular na cara da criatura.
    -Massa, cara! Disse o gazeta chegando mais perto da linda garotinha, elogiando a maneira como ela tratou a criatura do bosque.
      O horário de aulas passou. A linda garotinha se despediu de Topeti e saiu das dependências do colégio. Enquanto ia para casa lembrava dos momentos que passara com o moleque atrás do colégio:  
       Todos os meninos com os quais ela ficava usavam topete. Mas o topete de Topeti era diferente. O topete de Topeti era "o Topete". O gel que ele usa deve ser...
       De repente, a linda garotinha foi assaltada por outros pensamentos:
       Sou uma linda menininha voltando para casa que vai cortar caminho pelo bosque. Cara! O que há de errado nisso? Nada. Se eu não tivesse deixado alguém com muita raiva de mim. É óbvio que a criatura do bosque ainda está me esperando atrás da árvore.
      Papai sempre diz à mamãe que devemos juntar a comunidade e passar a motosserra nessa árvore. É muito perigosa. Mas mamãe sempre responde “Não diga isso! Alguém ouve você falando, outro corta a árvore e pensam que foi você... São três salários mínimos de multa!”
      Não arriscou a passar pelo caminho de sempre. Deu a volta por outra rua. Os meninos da outra rua estavam lá. Sete ou oito mais ou menos. Deixaram a linda garotinha passar sem apavorar muito. Apenas tomaram a sua boina, ficaram com a touca que usava por baixo da boina, encheram a menininha de bicudões (“para ela largar mão de ficar se achando”) e advertiram: 
        -Se você passar pela nossa rua de novo, guria... Nós não vamos deixar baixo!
     Ao virar a esquina , entrando na rua de sua casa, a linda garotinha observou alguém parado perto do seu portão:
     Que magrinho esquisito. Não usa nenhum piercing, não tem gel no cabelo e nem veste roupas de marcas. Só pode ser a criatura do bosque!
      Pensou em voltar  correndo pedir ajuda para os meninos da outra rua. Mas pensou que talvez não fosse necessário. Ao vê-la a criatura apenas jogou o relógio em sua direção e afastou-se, abrindo caminho. 
     Ela não conseguiu agarrar no ar. Juntou o relógio no chão e passou correndo para dentro do lote. 
      Com o portão fechado e ocadeado batido, a linda garotinha, curiosamente resolveu gritar com a criatura que já ia longe, voltando para trás da árvore. 
      Já sem perigo, dentro do lote de casa, com o portão fechado e o cadeado batido, ela resolveu gritar:  
      -Ei, maluco! –Ele virou-se e parou para ouvir o que ela  queria:
      -O que quer que eu acredite com isso? Que o bosque perto dá escola não é perigoso? 
      - Quero que acredite apenas que o bosque não é lugar de você deixar aquilo que não quer mais!

       Texto: Osmar Batista Leal