segunda-feira, 31 de outubro de 2011

OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING parte 1


 OS VAMPIROS ESTÃO DENTRO DO SHOPPING
    Parte 1   

               Curitiba,  final de 2006
       De repente tudo escureceu.  Todos ali dentro viram  apenas a palavra Fim, surgindo no meio da tela.  Simultaneamente, a música “Bela Lugusi is dead” da banda Bauhaus , começou a ser cantada. A versão foi  executada pelas cantoras do Nouvelle vague.
       O som e as luzes foram estranhados pelos espectadores:
        -Isso é final de filme?” -Alguém gritou. E após o grito, assobios e vaias tumultuaram o ambiente. As pessoas reagiram como se o filme não tivesse terminado, mas interrompido. Nunca viram um final como esse.
       -Que coisa mais acadêmica!  - Outra pessoa manifestou-se. Mas, das paredes, as arandelas continuaram com sua  iluminação gradativa. Logo, a música acabou e não restou nem mais os letreiros. Havia  apenas a tela branca e a luz mal educada nas caras enraivescidas.   
        Uns levantaram-se, resmungando qualquer coisa, caminharam entre as fileiras de poltronas e foram embora. Conseguiram passar   pela porta, antes que a saída ficasse congestionada. Outros deixaram o lugar aonde estavam acomodados, mas  pararam no meio do caminho, xingando   a tela branca na parede. As vozes gritavam, relembrando cenas do filme:
       -Perdemos tanto tempo acompanhando a  preparação dos heróis só para ver  sua rápida e ridícula derrota...
       -O filme deveria ter pelo menos mostrado de onde surgiram aquelas criaturas esquisitas que derrubaram o avião...
       -Como essa história pode ter acabado sem ao menos revelar o que realmente estava acontecendo?
        -As criaturas simplesmente apareceram, atacaram e esconderam-se novamente. Podem voltar a atacar a qualquer momento! O filme terminou deixando elas livres para assassinar quem quiserem...
       Cristóvão, com seu rosto escondido dentro do capuz da jaqueta, vestindo uma bermuda com vários bolsos, foi o último espectador a levantar da poltrona. Assim como os outros, não gostou do filme, só que não estava  interessado em discutir sobre isso. Queria  apenas passar por aquelas pessoas que gritavam no meio das fileiras e chegar até a porta. Mas alguém esbarrou em seu braço, antes que saísse do lugar.
       O rapaz virou-se e uma moça, ainda sentada,  sorria,  olhando para ele. Quem é essa guria ? – pensou. Não era essa guria que estava sentada ali antes.  A cor dos lábios dela era  vermelha como a poltrona aonde  sentava.
       A moça usava  um leve vestido claro. Seu sobretudo era basicamente preto, mas os óculos tinham as cores do arco- íris. No cabelo curto, pintado de branco, destacava-se uma mecha  negra. Contudo, o que mais chamou a atenção do rapaz foi o comportamento sossegado que a moça apresentava.
        Ela estava parada em meio ao alvoroço como se ainda esperasse a continuação do filme. Uma expectadora que não olhava para a tela. Seu  olhar estava fixo em Cristóvão. Por alguns instantes, ele sentiu-se como se fosse consigo a continuação que ela aguardava.
       -E aí ... qual é o teu nome? Perguntou Cristóvão.
       -Fique calmo- disse ela .
       -Sente mais um pouco. –continuou ela.
       Ele obedeceu. Enquanto a fila de saída ia ajeitando-se, sentou-se. Isolou-se por um momento do barulho da sala. Ela  perguntou:
      - Qual que é teu nome, piá?
      - É Cristóvão .
      -Não tem, tipo, nenhum apelido, piá?
       -Por quê? – Perguntou, desconfiadamente, Cristóvão. Talvez ela soubesse alguma coisa sobre ele.
       -Por nada, piá. Todo mundo tem um apelido.
        -Você não vai me dizer o teu nome também, guria?
        A moça  respondeu  tranquilamente :
        -Guria Maconha.
        - Teu nome é muito massa!  -Disse, admirado, o rapaz.
        - Você curte ir  no Largo da Ordem? -perguntou, Cristóvão.
        - Com certeza! –respondeu, ela.
        -O que achou, tipo, do filme? –Ela perguntou, acrescentando um elemento a mais na conversa e ao mesmo tempo trazendo de volta o pensamento de  Cristóvão para dentro da sala de cinema.
        -Muito palha. Faltou ação nos heróis! Faltou terror nas criaturas! Eu esperava que elas derrubassem mais aviões e matassem mais pessoas. Achei que o bagulho seria mais pira!   
        - Pode crer, piá, você manja de cinema mesmo!  
        Do mesmo modo que o saco de pipocas que a maioria dos espectadores trouxe , ao entrar na sala , logo ficou vazio; consumiu-se também o alvoroço ali dentro. Os espectadores falaram muito mal do filme, mas não foi o seu conteúdo o motivo de sua revolta. Acomodados no declive das poltronas, mantiveram-se atentos à seqüência de cenas durante mais de uma hora e  meia. A histeria coletiva veio à tona quando a luz os iluminou. Não aceitaram ser surpreendidos pela claridade. Mas logo, toda a raiva foi descarregada. Acalmaram-se e foram embora.
       Ao voltar sua atenção para o ambiente, Cristóvão percebeu que não havia mais barulho. Ele e Guria Maconha eram os últimos na sala. Porém, Uma súbita sensação de que o Shopping já está fechado preocupou instantaneamente o rapaz.
        A moça permaneceu calma. Apenas a mecha de cabelo e o vermelho de seu batom movimentaram-se enquanto ela perguntou:
       - E aí, tipo, vamos beber um vinho, piá, lá no largo!
       A sensação ruim de estar fechado dentro do shopping diminuiu com a possibilidade de sair dali com a guria- maconha. Cristóvão Ficou ansioso em  conhecê-la melhor em um espaço mais livre.
        -Assim: Meu carro tá, tipo, lá no subsolo, piá. Vamos descer! –Convidou , a moça. E então resolveu levantar da poltrona vermelha.
        Ele observou o rosto maquiado de branco. Uma lua cheia pairando lá fora sobre todos os prédios de Curitiba passou pela imaginação de Cristóvão... Mas sentiu que ainda precisava fazer algo antes de deixar o local.
        -Faz o seguinte, guria . Vá indo na frente. Vou procurar o sanitário e já te alcanço. Tenho que dar um mijão!
        -Sério! Disse Guria Maconha e caminhou entre as fileiras de poltronas.
                 CONTINUA...
Texto : Osmar Batista Leal
  ( Leia também  “Pálidas’ drinks” a partir de 2/11/2011 em localdoocio.blogspot.com )


sábado, 29 de outubro de 2011

RETÂNGULOS DE CONCRETO


          Calor de quase trinta graus!
        No interior do retângulo de concreto, as poucas janelas existentes não conseguem arejar o ar. A única porta existente está fechada ! Vigiada!
        -É proibido reclamar! Dizem os mais de cem cartazes multicoloridos fixados nas paredes do retângulo de concreto.
        - É proibido se expressar! Anuncia a voz forte e autoritária nas caixas de som de toda a “escola”!?!
            Para manter os 40 alunos ocupados, o quadro negro está cheio, cheio pela segunda vez nessa mesma aula. Cheio pela sétima vez nessa mesma tarde de sexta-feira!
         O vigia está atento à porta. Observa os olhares daquelas crianças trancafiadas, as quais fitam o quadro negro e automaticamente reproduzem o seu conteúdo nos cadernos. A maior parte delas tem entre 8 e 10 anos. Todas em silêncio absoluto, todas uniformizadas, todas obedientes e comportadas.
      Observar e controlar! Vigiar e punir! Domesticar!
     Essas são as funções do vigia! Profissional bem remunerado, bem conceituado, bem treinado!
       Observar e controlar! Vigiar e punir! Domesticar!
       Estes ão os lemas da nova sociedade. São os alicerces de uma nova educação! É claro que estamos falando do futuro! Futuro que traz a sociedade perfeita, a sociedade sob controle!
        Todos os retângulos de concreto da “escolinha liberdadi” funcionam perfeitamente. Não há mais vagas! No próximo ano, mais retângulos serão construídos, mais vigias serão contratados e novas crianças serão mecanizadas.
      Os pais estão felizes, pois seus filhos apenas dizem “sim senhor” e “sim senhora”. Nenhuma criança brinca, nenhuma criança se suja, nenhuma criança tem infância!
       As propagandas da “escolinha Liberdadi” estão o tempo todo na TV:
       -Agora posso assistir o jogo e tomar minha cerveja em paz! Isso é que é vida!
        -Agora posso assistir minha novela sem incomodações! Isso é que é vida!
      - Sim! Nossos filhos estão depositados na “escolinha liberdadi”, o lugar ideal para a acomodação de nossos filhos! Matricule já o seu!Porque o nosso já está lá! HAHAHAHA!
          A propaganda não para:
         - Oi Pessoas! Me chamo Tetê, e meus 666 filhos também estão depositados na “escolinha  liberdadi”, e o que é mais legal...nos três horários! Isso mesmo! Nos três horários! Imaginem vocês... posso acordar tarde, ir ao shopping, assistir o vídeo show, à malhação, e ver todas as novelas!Uau! Foi graças à escola liberdadi que consegui um tempinho para mim! Tenha um tempinho para você também! Matricule seus pimpolhos na “escolinha liberdadi”, a escola que prepara o seu filho para passar na provinha Brasil, no Enem e em todos os vestibulares... ele vai se transformar numa máquina de fazer provas! E se você quiser, nem precisa ver a criança! Isso mesmo! Nem precisa conviver com a criança! Os vigias da "escolinha da liberdade" a trazem e a levam em casa quando você estiver dormindo! Para quê se incomodar com a educação das crianças? Ligue já! Nossa diretora Bel terá muito prazer em receber a sua mensalidade! Venha nos fazer um visita! Mas atenção! Não aceitamos cheques e nem palpites! Só dinheiro mesmo!
    Me desculpem! Preciso parar com o texto imediatamente! Acabei de ver no noticiário que a secretaria da boa educação, de nossa cidade, anunciou que as crianças de 5 anos já podem perder a infância e estão "aptas" para serem matriculadas na "escolinha liberdadi"... o meu filho já tem seis anos!!!

texto: Josmazar.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A EDUCAÇÃO DOS HOMENS



 “Todas as nossas línguas são fruto da arte.  Durante muito tempo se procurou saber se havia uma língua natural e comum a todos os homens. Sem dúvida existe uma: É a que as crianças falam antes de saber falar.”
       ( Jean Jacques Rousseau)


     -Boa noite. Meu nome é Sério. Professor Sério! E hoje eu estou aqui para explanar sobre três tipos de educação observados por Jean Jacques Rousseau. Mas antes de começar a falar, gostaria de dizer que não vou admitir, durante a minha fala, nenhuma interrupção...
    -cloac...!
    -Mas o que é isso? Por acaso tem algum palhaço aqui na frente? Ou vocês me contam quem foi o engraçadinho que  fez  “cloac” ou eu expulso todos vocês da sala...Tudo bem. Desta vez passa, mas da próxima... Vamos iniciar pela “Educação da natureza”. Trata-se do desenvolvimento de nossos próprios órgãos... 
     -O desenvolvimento de meus próprios órgãos me permite pular, correr pela sala, saltar sobre as carteiras,  mexer nas coisas alheias, incomodar aos outros...
     -Mas que absurdo! Volte para o seu lugar palhaço.Vá sentar... Temos também “A educação dos homens”. É o uso que nos ensinam a fazer do desenvolvimento de nossos próprios órgãos...
     -Se eu não posso pular, correr pela sala, saltar sobre as carteiras, mexer nas coisas alheias, incomodar aos outros... Então eu quero sair daqui! Alguém abra essa porta! Eu quero sair!
       - Cale a boca, palhaço! Não grite! Você está pensando que está em sua casa?  E finalmente “A educação da coisas”. É a experiência que adquirimos das coisas e do mundo ao nosso redor que nos afetam... Que de alguma maneira nos afetam...Não vai interromper-me agora Palhaço?
      -Agora não. Agora eu aprendi a sentar e ficar bem quietinho!

        Texto: Osmar Batista Leal
   

sábado, 22 de outubro de 2011

ESTADO DE ANOMIA...

      No discurso de Martin Luther King pela igualdade, o verbo sonhar é referência primeira. É uma menção poética sobre a possibilidade concreta de liberdade e justiça entre os homens.
     Na minha visão sobre a humanidade de hoje, a poesia está definhando, prestes a morrer.
    Percebo a cada dia, nas experiências com o outro, que o processo de desumanização é intenso e irreversível; similar a uma praga que se espalha, a um vírus que resiste ao bom senso, que se alimenta das injustiças e do vale tudo pelo poder. Tal vírus se prolifera a partir da covardia, explicitando o medo da liberdade nunca antes conhecida. Por quê aceitamos o jugo? Por que estamos quase sempre ajoelhados reproduzindo o "amém"? Que doença é essa que infecta nossa individualidade com ideologias alheias e impositivas?
     A resposta está nas faces sem expressões próprias, nas cabeças baixas esperando ordens... é a doença da submissão!

TEXTO: JOSMAZAR

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A CRIATURA DO BOSQUE DO CAMPO COMPRIDO



        "O carinho, como o jogo e a comida, exige certa dosagem" 
        ( Anton Makarenko)
      Mochila com formato de ursinho sobre as costas, piercing no nariz, argolonas nas orelhas, trancinhas, banda na testa,  touca na cabeça, boina por cima da toca... A linda garotinha ia para o colégio.
      Caminhando lentamente para chegar na segunda aula, ela atravessava o bosque de uma árvore só, quando de repente, foi assaltada por um pensamento horrível: 
      Sou uma linda menininha de dez anos que passa pelo bosque para chegar na escola, pensando no menino com o qual ficou ontem à tarde. Cara! O que há de errado nisso?
      Nada. Não fosse esta uma história de horror e loucura. Um jovem maníaco, um velho pedófilo ou qualquer outra criatura estranha vai me atacar a qualquer instante. Eu preciso andar mais rápido! Socorro!
      Ao se sentir insegura, ela começou a correr. Sem olhar para trás nem para os lados, escapou daquele  bosque de uma árvore só. Mas em sua saída às pressas ,  não percebeu que o relógio caiu de seu punho.
     Nesse momento,  olhos detrás da árvore viram  que alguma coisa caíra da mão da linda garotinha.  E então  você já pode perguntar: 
     -Quem é essa criatura esquisita que fica escondida atrás da árvore que há nesse bosque?
      Primeiro vamos falar sobre a única árvore existente no bosque. Esse fato ocorreu em um bairro chamado Campo Comprido. Depois de deixar que quase todas as árvores do bairro fossem derrubadas para a construção de prédios, a "cidade ecológica" decretou uma multa de três salários mínimos para quem derrubasse a última árvore.
     As horas se passaram. A linda garotinha encontrava-se dentro da sala de aula, olhando a prova de matemática em cima da carteira, concentrada no cara com o qual havia ficado na hora do recreio, quando seu telefone celular tocou. O som tirou a concentração das outras crianças. Todos levantaram seus olhos da prova para a menina que entregou a folha, sem escrever nada nela, à professora e saiu correndo da sala. Levando o celular à orelha correu para trás da escola.  
     Um menino de topete, gazeteando atrás do colégio, observou quando a linda garotinha chegou perto dele, encostou-se na parede, e começou a escutar a conversa:
     -Alô! Disse a linda garotinha.
     -Alou! –respondeu uma voz feia.   
     -Quem gostaria de falar comigo? –perguntou a linda garotinha sem muita curiosidade.
     - Sou a criatura do bosque.
     - Quem te passou o meu número, criatura do bosque?
     - Sem muitas perguntas. Isto é um conto e não um romance.
     - Então diga logo o que você quer, criatura !
     - Bom, é o seguinte: Estou com o seu relógio!
     -Meu relógio! Foi então que ela notou que o relógio, cuja pulseira não andava prendendo direito, havia desaparecido de seu pulso.O objeto era um presente que ganhara da mãe no aniversário passado. Já estava na hora de usar uma coisa mais na moda.      
     -Estou com seu relógio. –repetiu a criatura. Mas não precisa se preocupar, linda garotinha. Vou devolver isso a você. Deixa eu ver. Agora são dezesseis e... Esteja aqui no bosque até as dezesete!
     -Você está usando o meu relógio sem a minha permissão!
     -Sem frescuras, linda garotinha! . Eu espero sentado no banco perto da árvore. Estou usando uma camisa branca por dentro de uma calça azul marinho...
     -Não estou mais interessada nesse relógio. Guarde para você. Desligou o celular na cara da criatura.
    -Massa, cara! Disse o gazeta chegando mais perto da linda garotinha, elogiando a maneira como ela tratou a criatura do bosque.
      O horário de aulas passou. A linda garotinha se despediu de Topeti e saiu das dependências do colégio. Enquanto ia para casa lembrava dos momentos que passara com o moleque atrás do colégio:  
       Todos os meninos com os quais ela ficava usavam topete. Mas o topete de Topeti era diferente. O topete de Topeti era "o Topete". O gel que ele usa deve ser...
       De repente, a linda garotinha foi assaltada por outros pensamentos:
       Sou uma linda menininha voltando para casa que vai cortar caminho pelo bosque. Cara! O que há de errado nisso? Nada. Se eu não tivesse deixado alguém com muita raiva de mim. É óbvio que a criatura do bosque ainda está me esperando atrás da árvore.
      Papai sempre diz à mamãe que devemos juntar a comunidade e passar a motosserra nessa árvore. É muito perigosa. Mas mamãe sempre responde “Não diga isso! Alguém ouve você falando, outro corta a árvore e pensam que foi você... São três salários mínimos de multa!”
      Não arriscou a passar pelo caminho de sempre. Deu a volta por outra rua. Os meninos da outra rua estavam lá. Sete ou oito mais ou menos. Deixaram a linda garotinha passar sem apavorar muito. Apenas tomaram a sua boina, ficaram com a touca que usava por baixo da boina, encheram a menininha de bicudões (“para ela largar mão de ficar se achando”) e advertiram: 
        -Se você passar pela nossa rua de novo, guria... Nós não vamos deixar baixo!
     Ao virar a esquina , entrando na rua de sua casa, a linda garotinha observou alguém parado perto do seu portão:
     Que magrinho esquisito. Não usa nenhum piercing, não tem gel no cabelo e nem veste roupas de marcas. Só pode ser a criatura do bosque!
      Pensou em voltar  correndo pedir ajuda para os meninos da outra rua. Mas pensou que talvez não fosse necessário. Ao vê-la a criatura apenas jogou o relógio em sua direção e afastou-se, abrindo caminho. 
     Ela não conseguiu agarrar no ar. Juntou o relógio no chão e passou correndo para dentro do lote. 
      Com o portão fechado e ocadeado batido, a linda garotinha, curiosamente resolveu gritar com a criatura que já ia longe, voltando para trás da árvore. 
      Já sem perigo, dentro do lote de casa, com o portão fechado e o cadeado batido, ela resolveu gritar:  
      -Ei, maluco! –Ele virou-se e parou para ouvir o que ela  queria:
      -O que quer que eu acredite com isso? Que o bosque perto dá escola não é perigoso? 
      - Quero que acredite apenas que o bosque não é lugar de você deixar aquilo que não quer mais!

       Texto: Osmar Batista Leal  




sábado, 15 de outubro de 2011

AINDA ESTAMOS NA QUARESMA... PARTE III



        Marcelo Macedo Reginaldo está de boca aberta... o número de notas de cem no balcão da portaria ultrapassou o valor das contribuições de toda a semana...
-Nossa! Quanta grana! Além de haver comprado a bíblia mais cara e depositado dinheiro nos envelopes e urnas, o simpático sujeito ainda contribuiu para a campanha de ajuda aos religiosos aposentados por “invalidez”! Colaborou na compra de mais de cem cruzes para a decoração do Acapulcos Dancing; contribuiu com a associação dos religiosos jogadores de truco e na compra das correntes banhadas a ouro para o dia da corrente da fé, na quarta-feira!  
      -Que jovem burro, quer dizer bom! Com todo esse capital, logo comprarei emissoras de tv e rádio, hahahah!  Mas espere um pouco, como ele sabia meu nome? E pareceu-me que usava um par de tênis todo redondo... deve se a útima moda! Isso não importa, o que interessa é que com essas doações, com certeza,  ele vai direto para o céu. Não faz nem escala no purgatório...HAHAHAHA!
       Dentro do acapulcos todos estão eufóricos. Muita adrenalina, muita alegria, muita paz nos corações! Mas repentinamente as luzes se acendem, o barulho cessa, o tempo para! Alguém adentra ao salão...
     Ele é alto, magro! Sua face está sorridente! Encara cada uma daquelas pessoas que estão ali, paralisadas, interpretando com perfeição o papel de estátuas, todas coadjuvantes do diálogo que está por vir. 
    Seu rosto aparenta humanidade mas não demonstra nenhuma expressão sinificativa. Ao mesmo tempo difere e se parece com o rosto de todos que estão ali... basta apenas dizer que ele não é mais um no meio da galera... mas não é mesmo...
      O silêncio se rompe... Merliseu cumprimenta o estranho:
     -Oi Amigo! Bem vindo à noite da bíblia. Eu sou Merliseu.Se quiser posso lhe ensinar alguns passinhos de dança, para você poder se enturmar com a galera... que tal?
     - AHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!! Um berro maligno e gutural atropela as palavras de Merliseu... e a transformação começa... a raiva e a fúria daquele ser até então aparentemente humano se espalham pelo ar!
    Ninguém se mexe! Continuam como estátuas sem participarem da dantesca cena que se inicia! 
    A metamorfose se acelera. O tecido epitelial se desprende do corpo que parecia humano, deixando à mostra uma pele rugosa verde e amarela. O que era um rosto dá lugar a uma máscara de larvas em movimento... há buracos no lugar do que antes eram os olhos, o nariz e a boca. A pele era apenas uma casca... a criatura está voltando a ser o que realmente é... a revelação é nojenta, assustadora, mas na face de Merliseu não há pânico, nem medo! Apenas a tristeza é perceptível em seu semblante.
    O corpo escamado com um longo rabo peludo se movimenta em direção ao garoto de jaqueta amarela, que não foge, que não grita, que não emite nenhuma reação possível de se imaginar...
    As suspeitas de Marcelo Macedo Reginaldo se confirmam: os pés da coisa escamada são de fato redondos, com cascos! Assemelham-se aos do deus dos pagãos, Baco, ou mesmo aos mais comuns bodes sacrificados em holocaustos, nas mais diferentes culturas religiosas, tanto monotéistas quanto politeístas.
      Merliseu encara a criatura, enquanto dois chifres, também verde-amarelos, despontam da cabeça da coisa gosmenta! Ele sabe quem é, mas não exatamente o que quer...
    - Já chegou a minha hora? Você veio me buscar? Responda-me, "capeta do Brasil". Não me deixe angustiado! Eu já havia me acostumado por aqui...
    - Calma! interrompe o capeta do brasil:
    - Não fique triste, garotinho, não vim lhe buscar. Não, ainda.
    Merliseu sorri e dá um salto de alegria:
   -Graças ao diabo! Que bom! Vou ter mais tempo entre os desumanos, quer dizer, humanos!  Estou muito feliz por isso Capeta do Brasil!
    -Nós também soldado! Você já tem mais de cinco mil seguidores, seu blog está bombando! Os acessos em seus vídeos no you tube já ultrapassaram o do Justin Biber... claro que tive que conversar com ele... ficou irritado com a concorrência, mas como jogamos no mesmo time, a razão capitalista prevaleceu no final! HAHAHA!,     
     -Está cumprindo bem sua missão! Lá embaixo já temos uma boa quantidade de almas! Vim aqui apenas para conferir pessoalmente seu poder carismático e dizer que ficará por mais um século entre os desumanos, quer dizer, humanos, e além do mais você dança bem mesmo... HAHAHA ! 
     - Agora chega de conversa, vou recolocar minha casca humana e dar um pulo ao shopping... estou sentindo falta da dieta do palhaço: Vou pedir dois Bigcíssimos Macs e dez porções de gorduras trans, além de 2,5L da descalcificadora de ossos... É ISSO AÍ!
    A luzes se apagam novamente, o som tocado pelo dj está ensurdecedor!
   Merliseu dança, dança como nunca, que energia... que carismático, que capetinha...
  Tudo está normal! A galera grita, se movimenta, agita! Nada de estranho parece ter acontecido ali...
   E na jaqueta de couro amarela de Merliseu, duas palavras se destacam:
ORDEM E PROGRESSO!
                                                                TEXTO: JOSMAZAR.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

COMO FICAR RICO (E manter a sua fortuna)



Como ficar rico (e manter sua fortuna)



   Meu nome é João Louco (1632-1704) Estou aqui hoje para  narrar uma história que fala de vida, liberdade e propriedade. Vamos começar com a seguinte pergunta:         
  - Quanto vocês têm coragem de pagar pela minha vaquinha?
  - Um real.
  - Dez centavos.
  - Nada.
  - Um milhão de dólares.
  - Não quero nem de graça.
  - Passe mais tarde... E para concluir o parágrafo, o menininho conseguiu vender a vaquinha por três feijões mágicos. Mas quando ele chegou em casa,  a mãe disse:
   - Mas como você é burro, menininho! Eu mandei você vender a Feldalícia porque já estávamos passando fome. Você foi lá e trocou a nossa vaquinha por três feijões mágicos! O que nós vamos fazer com três feijões mágicos, meu Deus do céu?  A Feldalícia era a nossa última economia.
     Estressadíssima, a mãe arrancou os três feijões mágicos da mão do menininho e fez “voar” pela janela. Mas à noite o vento trouxe os feijões mágicos de volta.
     De manhã, quando o menininho acordou e abriu a janela. Minha nossa senhora! Um pé de feijão gigantesco havia nascido.
     O menininho era muito ativo. Gostava de trepar em árvores. Quando fazia alguma traquinagem e a mãe pegava uma varinha, ele corria e subia numa árvore. Só descia quando a raiva dela passasse. Por isso começou logo a escalar o pé de feijão. Subiu, subiu, subiu e subiu... Foi parar lá no Palácio do Governo.
     Lá no Palácio do governo ele encontrou Capitalina. Capitalína era uma galinha que botava ovos de ouro. Escondeu a galinha debaixo do braço e saiu metendo o pé. O governo percebeu e correu atrás do ladrãozinho; digo, do menininho.
      Escapou do Palácio e desceu rapidamente pelo pé de feijão como se estivesse num conto de fadas. O Governo desceu atrás. Quando chegou aqui embaixo, o menininho percebeu que o governo descia bem louco atrás dele. Procurou pelo machado da mãe cortar lenha e com uma machadada bem dada, atorou o pé de feijão mágico, derrubando o Governo.
       Quando a mãe do menininho viu Capitalina, a galinha que botava ovos de ouro, ela disse:
       - Até que você não é tão burro como eu pensei, menininho. Dentro dessa galinha deve haver um tesouro ainda maior do que esses ovinhos de ouro. Aonde você largou o machado?
       - Larguei lá onde estava, mamãe! –disse o menininho ainda segurando Capitalina.
       - Vá buscar o machado para mim. Vou atorar essa penosa pelo meio!
       - A senhora está louca, mamãe! Eu li uma fábula do Esopo. Um camponês encontrou uma galinha que botava ovos de ouro. Partiu ela no meio pensando que dentro dela havia  um tesouro ainda maior. Não encontrou nada além de tudo o que há dentro de uma galinha normal.
     - Fábulas! Eu já te disse, menininho, que a vida não é uma fábula. Me dá aqui essa galinha e vá buscar o machado.
     Vendo que não havia outro jeito, o menininho foi buscar o machado. Entregou para a sua mãe, mas não deu a galinha. Saiu correndo de novo.
     Logo após a segunda fuga do menininho, a polícia que já havia averiguado que o Governo não sobrevivera à queda, chegou na casa e flagrou a mãe com o machado na mão. Prendeu a mulher imediatamente.  
   
    
      Meu nome é Antônio Preso ( 1891-1937) Estou aqui para contar o resto dessa história.
      - Um momentinho. Eu sou a pessoa que está acompanhando a história. Por que o João Louco foi embora  antes de terminar de contá-la?
       - Ele não sabe da sua continuação. Morreu antes... O menininho estava livre, mas teria de proteger a sua galinha. Havia uma multidão interessada em roubá-la. Foi esperto. Escondeu a galinha debaixo do seu chapéu.
       -Chapéu! Que chapéu é esse que o João Louco não mencionou?  
       - Ele não viu. Tratava-se de um chapéu invisível que o menininho encontrou ao lado da galinha dos ovos de ouro e trouxe consigo. Mas ele não tinha ideia de até quando a invisibilidade do chapéu duraria. Por isso armou um plano.
      Enquanto a multidão procurava pela galinha, organizou uma grande gincana. Ofereceu o primeiro ovo de ouro que a galinha botasse ao vencedor. Isto fez com que a multidão se dividisse e perdesse sua enorme força. O segundo ovo de ouro ofereceu ao prefeito para que ajudasse a administrar a gincana de forma que todos lutassem pelo ovo de ouro e nunca pela galinha. O terceiro ovo...
       -Já sei. O terceiro ovo de ouro daria a um advogado para que livrasse sua mãe da cadeia?
       -Não. Com o terceiro ovo de ouro compraria outra galinha dos ovos de ouro. Já pensou se ela morre  antes de botar o quarto?   

   Texto: Osmar Batista Leal
  ( Versão para “João e o pé de feijão” de Benjamim Tabart)  
   
 
      

sábado, 8 de outubro de 2011

AINDA ESTAMOS NA QUARESMA... PARTE II


 - Sai capeta, sai capeta! Aqui você não entra nem de escopeta!
E as centenas de bíblias eram arremessadas ao alto. As pessoas berravam loucamente seguindo as frases “sapienciais” do dj carismático... e dá-lhe gritaria:
-  Aleluia manos, aleluia minas! Vamos lá, lá, lá, lá!Vamos ali, li, li! O  importante é não deixar a bíblia cair! - Sai capeta, sai capeta! Aqui você não entra nem de escopeta... nem vestido de borboleta... e não adianta fazer careta! Hahahaha!
Merliseu estava no meio da galera, aliás, no meio não, mas na frente, pois como eu havia dito anteriormente, ele era o mascotinho... o mais entusiasmado do bando, quer dizer, dos “fiéis festeiros”. Era ele quem havia escrito todas as letras das músicas cantadas pelo pastor, e por isso o ajudava em sua função de agitador:
- Sai capeta,sai capeta, não adianta fazer careta, aqui você não entra nem de escopeta...Hahahahah!
Lá fora, quase já na entrada do Acapulcos Dancing um pensamento ecoou ao vento:
- Que decepção, ainda nem entrei e já querem que eu saia! É que ainda não me conhecem de carne e osso! Sei que vão gostar de mim... hahahahahahahaha!!!!!!!
A risada deixou o silêncio de seus pensamentos e foi percebida por Marcelo Macedo Reginaldo. O past... quer dizer, o segurança que ficava na bilheteria do Acapulcos:
- Oba! Mais um chegando! Mais grana entrando! Hehehehehe!
- Boa noite senhor! Bem vindo a noite da bíblia!
- Obrigado meu caro atendente! (respondeu o senhor de maneira cordial).
- Quanto devo pagar para participar desse maravilhoso evento?
- Nada! O que nós do Acapulcos Dancing queremos é que se divirta! O  nosso interesse é de que esteja bem com Deus e com seus irmãos de fé! A entrada é apenas simbólica, um kg de ouro não perecível...
- Minhas desculpas Marcelo Macedo Reginaldo, mas prefiro pagar ao invés de estar de bem com Deus, pois temos sérias divergências políticas! Mas quanto aos homens... bem, nosso relacionamento é muito antigo, e sempre nos demos bem.
- Ora! A sua divergência com Deus não é nenhum impedimento para sua presença em nosso estabelecimento. Falo isso porque sou obrigado. Você entende, são as regras da casa. Temos que manter as aparências...
- Eu já imaginava!
- Mas há uma coisa que impede sua entrada... Vejo que está sem bíblia, e sem bíblia não pode entrar!
- Mas eu conheço todo seu conteúdo! Se quiser posso lhe cantar alguns salmos, recitar alguns provérbios, dizer o que é real e o que é falso! O o que é original e o que é acrescido pela igreja medieval.
- Sinto muito, mas não dá! O jeito é você comprar uma! Mas não esquenta não, tenho aqui vários modelos, pode escolher...
- Hahahahah! É claro, como pude esquecer. Comprarei a mais cara e mais mentirosa que você possa ter aí, Marcelo Macedo Reginaldo! E antes que eu esqueça, você é muito bom no que faz! Tem estilo! Sabe fazer negócios! Sua carreira está apenas começando! Em breve vai ser famoso e milionário... hahahahah!

É isso! Em breve! No próximo sábado, o próximo capítulo, o encontro da criatura e seu criador...      

Texto: Josmazar

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

FANTASMA DE COMENIUS APARECE PARA ALUNAS DO CURSO DE FORMAÇÃO DE DOCENTES



     Foi na sexta feira passada. Última aula. Todas estávamos cansadas. A maioria havia trabalhado de manhã, tarde e à noite, aula.
     O professor de FHPEI ( Fundamentos Históricos e Políticos da Educação Infantil) entrou na sala. Também parecia muito cansado.Apresentava cara de sono.Tirou o livro de chamada da mala. Fez chamada. Pegou um giz da caixa com apagador.
       Mas quando ergueu-se da cadeira, algo estranho aconteceu.Seus olhos abriram-se numa careta como se estivessem vendo alguma coisa se aproximando.Sem falar nada, deixou-se cair contra a mesa.
        Todas as alunas que estavam dentro da sala presenciaram o fato, mas preferem não falar sobre isso. Eu quero contar, mas não quero  ser identificada. Nem o nome do colégio vou especificar. Afirmo apenas que presenciei  o que aconteceu  dentro da minha sala e que, estudo em uma escola de Curitiba.
       Após alguns segundos debruçado sobre a mesa, o corpo do professor levantou-se empolgado e olhou para todas nós. Mas não era o professor quem começou a falar:
     -Boa noite! Meu nome é Comenius. Para quem preferir o nome mais original: Jan Amos Komensky. Parti no século XVII, de uma região na Europa central chamada Moravia. Atual Tchecoslováquia. Aproveitei que estava havendo um conflito religioso –estavam expulsando pensadores protestantes- para dar uma escapadinha.
    Depois dessa longa viagem no tempo e no espaço, não sei como  estou parecendo para vocês, mas ainda tenho fôlego para ler um trecho da minha obra: Didática Magna. Didática Checa, se preferirem o nome de origem:
     “Os olhos, os ouvidos, o tato, e também a mente, procurando sempre seu alimento, lançam-se sempre para fora de si mesmo...” Isto significa que tudo no homem aspira por conhecer. A curiosidade é espontânea. Desde criança ele quer aprender...Não sei porque as escolas insistem em dar o conhecimento às crianças como quem obriga a beber um remédio ruim.
      O Martinho Lutero fez muito bem em reivindicar escolas para todos . Todos devem aprender tudo. Mas eu não acredito que quando ele brigava pelas escolas ele queria colocar todas as crianças num espaço cercado por muros altos, grades internas e vigilância...
      Eu saí lá da Moravia, no século XVII para vir aqui pedir para que troquem a palmatória - ou seja lá qual for o objeto que as sofisticadas escolas atuais utilizam em seu lugar - por uma didática!
       Tudo o que o homem deve aprender deve ser ensinado a ele desde a infância. Mas não quer dizer que a sua cabecinha deve ser enchida com palavras vazias. Vocês acham que a criança é capaz de entender conceitos abstratos,como por exemplo, "justiça"? 
       Ele lançou a pergunta e antes que uma de nós respondesse, ele mesmo o fez.
       -Sim. Mas não apenas com um giz, uma lousa e uma explicação. Com certeza ela nem vai querer ouvir. Mas se utilizarmos por exemplo...
      Nesse instante a figura encarnada,  começou procurar pela sala alguma coisa até que encontrou...
       -Essa mochila. Deve ser do professor que está emprestando-me o seu corpo. Não gosto de mexer nas coisas dos outros, mas é por uma justa causa. Aqui. Encontrei. Um saco de amendoins. Serve. Deixe-me ver. Cinco amendoins dentro do saco. Tem quantas pessoas na turma de vocês?
       -Algumas já foram embora- Eu respondi. Virei- me para contar, mas não foi preciso.Ele já sabia.  
        -Trinta e três. Eu esperei o professor fazer a chamada primeiro para depois aparecer. Cinco é igual a trinta e três? Não. Mas cinco mais X é igual a trinta e três.
          E então, aquilo que se dizia ser Comênius , pegou o giz que o professor havia derrubado no chão e armou a "igualdade" na lousa. Após resolver a equação , descobriu que o valor de X era 27, foi novamente até a mochila. Revirou todo o material no chão. Encontrou outro saco de amendoins. Tirou dele apenas vinte sete amendoins. Acrescentou no primeiro saco. Distribuiu um amendoim para cada uma de nós enquanto dizia:
          - O amendoim é um alimento rico em proteínas. Mas se alguém pegar um estragado, pode fazer mal. Eu troco. Tem mais amendoim dentro do segundo saco.
            - É para comer ? –perguntou uma de nós ao fantasma.
            - Se não quiser , não precisa. Mas a minha obrigação é distribuir um para cada uma. A intenção não é alimentar ninguém com apenas um amendoim. É mostrar que a matemática mostra a igualdade... A justiça.
           Ainda havia alguns amendoins sobrando no saco sobre a mesa. O material do professor estava espalhado no chão.
            -Vamos deixar estes que sobraram para o professor que emprestou-me o seu corpo- Disse o fantasma enquanto guardava o saco de amendoim dentro da mochila.
            -Eu gostaria de juntar esse material espalhado também, mas não posso perder mais tempo. Daqui até A Moravia, no século XVII é uma longa viagem no tempo e no espaço.
           O professor acordou sobre a mesa, levantou a cabeça, pegou o giz e antes que notasse o seu material no chão, virou-se para a lousa dizendo:
           Hoje nós vamos estudar o Comênius. Alguém já ouviu falar?
           
  Texto: Osmar Batista Leal