Foi na sexta feira passada. Última aula. Todas estávamos cansadas. A maioria havia trabalhado de manhã, tarde e à noite, aula.
O professor de FHPEI ( Fundamentos Históricos e Políticos da Educação Infantil) entrou na sala. Também parecia muito cansado.Apresentava cara de sono.Tirou o livro de chamada da mala. Fez chamada. Pegou um giz da caixa com apagador.
Mas quando ergueu-se da cadeira, algo estranho aconteceu.Seus olhos abriram-se numa careta como se estivessem vendo alguma coisa se aproximando.Sem falar nada, deixou-se cair contra a mesa.
Todas as alunas que estavam dentro da sala presenciaram o fato, mas preferem não falar sobre isso. Eu quero contar, mas não quero ser identificada. Nem o nome do colégio vou especificar. Afirmo apenas que presenciei o que aconteceu dentro da minha sala e que, estudo em uma escola de Curitiba.
Após alguns segundos debruçado sobre a mesa, o corpo do professor levantou-se empolgado e olhou para todas nós. Mas não era o professor quem começou a falar:
Após alguns segundos debruçado sobre a mesa, o corpo do professor levantou-se empolgado e olhou para todas nós. Mas não era o professor quem começou a falar:
-Boa noite! Meu nome é Comenius. Para quem preferir o nome mais original: Jan Amos Komensky. Parti no século XVII, de uma região na Europa central chamada Moravia. Atual Tchecoslováquia. Aproveitei que estava havendo um conflito religioso –estavam expulsando pensadores protestantes- para dar uma escapadinha.
Depois dessa longa viagem no tempo e no espaço, não sei como estou parecendo para vocês, mas ainda tenho fôlego para ler um trecho da minha obra: Didática Magna. Didática Checa, se preferirem o nome de origem:
“Os olhos, os ouvidos, o tato, e também a mente, procurando sempre seu alimento, lançam-se sempre para fora de si mesmo...” Isto significa que tudo no homem aspira por conhecer. A curiosidade é espontânea. Desde criança ele quer aprender...Não sei porque as escolas insistem em dar o conhecimento às crianças como quem obriga a beber um remédio ruim.
O Martinho Lutero fez muito bem em reivindicar escolas para todos . Todos devem aprender tudo. Mas eu não acredito que quando ele brigava pelas escolas ele queria colocar todas as crianças num espaço cercado por muros altos, grades internas e vigilância...
Eu saí lá da Moravia, no século XVII para vir aqui pedir para que troquem a palmatória - ou seja lá qual for o objeto que as sofisticadas escolas atuais utilizam em seu lugar - por uma didática!
Tudo o que o homem deve aprender deve ser ensinado a ele desde a infância. Mas não quer dizer que a sua cabecinha deve ser enchida com palavras vazias. Vocês acham que a criança é capaz de entender conceitos abstratos,como por exemplo, "justiça"?
Ele lançou a pergunta e antes que uma de nós respondesse, ele mesmo o fez.
-Sim. Mas não apenas com um giz, uma lousa e uma explicação. Com certeza ela nem vai querer ouvir. Mas se utilizarmos por exemplo...
Nesse instante a figura encarnada, começou procurar pela sala alguma coisa até que encontrou...
-Essa mochila. Deve ser do professor que está emprestando-me o seu corpo. Não gosto de mexer nas coisas dos outros, mas é por uma justa causa. Aqui. Encontrei. Um saco de amendoins. Serve. Deixe-me ver. Cinco amendoins dentro do saco. Tem quantas pessoas na turma de vocês?
-Algumas já foram embora- Eu respondi. Virei- me para contar, mas não foi preciso.Ele já sabia.
-Trinta e três. Eu esperei o professor fazer a chamada primeiro para depois aparecer. Cinco é igual a trinta e três? Não. Mas cinco mais X é igual a trinta e três.
E então, aquilo que se dizia ser Comênius , pegou o giz que o professor havia derrubado no chão e armou a "igualdade" na lousa. Após resolver a equação , descobriu que o valor de X era 27, foi novamente até a mochila. Revirou todo o material no chão. Encontrou outro saco de amendoins. Tirou dele apenas vinte sete amendoins. Acrescentou no primeiro saco. Distribuiu um amendoim para cada uma de nós enquanto dizia:
- O amendoim é um alimento rico em proteínas. Mas se alguém pegar um estragado, pode fazer mal. Eu troco. Tem mais amendoim dentro do segundo saco.
- É para comer ? –perguntou uma de nós ao fantasma.
- Se não quiser , não precisa. Mas a minha obrigação é distribuir um para cada uma. A intenção não é alimentar ninguém com apenas um amendoim. É mostrar que a matemática mostra a igualdade... A justiça.
Ainda havia alguns amendoins sobrando no saco sobre a mesa. O material do professor estava espalhado no chão.
-Vamos deixar estes que sobraram para o professor que emprestou-me o seu corpo- Disse o fantasma enquanto guardava o saco de amendoim dentro da mochila.
-Eu gostaria de juntar esse material espalhado também, mas não posso perder mais tempo. Daqui até A Moravia, no século XVII é uma longa viagem no tempo e no espaço.
O professor acordou sobre a mesa, levantou a cabeça, pegou o giz e antes que notasse o seu material no chão, virou-se para a lousa dizendo:
Hoje nós vamos estudar o Comênius. Alguém já ouviu falar?
Texto: Osmar Batista Leal
legal seu blog professor!!
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